segunda-feira, 10 de junho de 2019

UM DOS PRIMEIROS PARCEIROS DE LAMPIÃO

A efêmera vida de Meia-noite

Por Joel Reis


Antônio Augusto (Feitosa ou Correia)[1], conhecido como Bagaço, natural de Olho d’Água, município de Piranhas – AL (atual Olho d’Água do Casado – AL)[2], era filho de Zé Bagaço, no qual herdou o apelido.

Quando tinha de 11 para 12 anos de idade, sua mãe, já viúva, pediu-lhe que fosse buscar legumes na roça. No caminho de volta, um rapaz o perguntou:

- Donde tu vem fedelho?

O menino se zangou com tratamento e respondeu:

- O qui você qué sabê? É da sua conta?

O rapaz também se irritou e lhe deu umas tapas. Antônio Bagaço jurou vingança:

- Isso num vai ficá assim, você vai me pagá.

Ao chegar em casa se armou com uma espingarda lazarina e disse:

- Mãe, vô ali.

Saiu a procura do Rapaz, mas só o achou por volta das 19h em uma fazenda. Estava chovendo muito, aproximou-se sorrateiramente e atirou no rapaz. Certo que o tinha matado, fugiu e foi dormir em uma casa de farinha na Fazenda Olho d’Água, do coronel Zé Rodrigues. Pela manhã um vaqueiro o encontra deitado e todo molhado, o acorda e faz diversas perguntas, o menino acaba falando do ocorrido. O vaqueiro o leva até o Coronel e conta a história.

- Menino, vou te dar uma pisa.

Aperreado, o menino revidou:

- Coroné, pelo leite que o sinhô mamou, não dê n’eu. É mió me matá qui estou satisfeito.

Então, o coronel para saber se de fato ele tinha coragem, mandou o vaqueiro pegar uma enxada e uma pá, entregou os instrumentos para o menino:

- Toma, cave sua cova.

Quando o menino já havia cavado uns seis palmos de fundura:

- Está bom, agora se prepare prá morrer.
- Tô pronto prá morrê, coroné! Agora peço que diga a minha mãe que morri como um homi e não como covarde!
- Olha que infeliz, não vou te matar, não. Mas na próxima te mato.

Ao chegar em casa, avisou à sua mãe que ia embora para não ser preso. Sem demora, saiu pelo mundo... acabou chegando em Espírito Santo – PE (atual Inajá – PE)[3], onde foi acolhido pelo velho Terto Cordeiro (Tertulino Cordeiro - da família Marcos)[4]. Por volta de 1921, surgiram questões de intriga entre os Marcos e os Quirinos. Em vista disso, já com dezoito para dezenove anos de idade, os filhos de Antônio Quirino tentaram espancá-lo, na luta saiu ferido na cabeça. Depois disso, chegou em casa, disse ao velho Terto:


- Tio! (Não era, mas assim o chamava), vô m’imbora procurar os cangaceiros.


 Antônio Augusto vulgo 'Meia-Noite'

A princípio, Bagaço entrou no grupo de Antônio Porcino. Logo, conquistou notoriedade. Posteriormente, integrou-se ao grupo de Lampião, no qual foi denominado de Meia-Noite por ser de cor parda. O chefe cangaceiro nutria verdadeira admiração, em virtude que, Meia-Noite possuía extrema coragem, tendo triunfado ao seu lado em diversas ações[5].

Em agosto de 1924, Meia-Noite discutiu de maneira severa com os irmãos de Lampião; Vassoura (Livino) e Esperança (Antônio). Foram acusados de terem roubado seus Rs. 9:000$000 (9 contos de réis = 9.000 mil-réis)[6]. Lampião interveio na discussão, indenizando o valor que ele alegava ter sido subtraído por seus irmãos quando estava dormindo. Questão resolvida, o chefe cangaceiro o expulsa do bando e exige a entrega do armamento. Sem demora, Meia-Noite responde:

- Si no meio desta cabroêra tem homi, venha tomá.

Os cangaceiros presentes preferiram não tentar. Sem demora, Meia-Noite foi andando para trás com os olhos fixos nos velhos companheiros, em pouco tempo desaparece na caatinga.

No dia 18 de agosto de 1924[7], poucos dias do ocorrido, Meia-Noite foi visto atravessando o sítio Bandeira em direção ao sítio Tataíra[8], na companhia apenas de uma mulher[9]. Um olheiro avisou o coronel Zé Pereira (José Pereira Lima) que o famanaz cangaceiro se encontrava no sítio Tataíra. Com o comunicado, tratou imediatamente de organizar uma diligência, a fim de apanhar o bandoleiro.

Por volta das 21 horas, foi formado um grupo em Princesa – PB (atual Princesa Isabel – PB)[10], composto de quatro soldados da Força Pública e oito civis, marcharam 4 horas até o sítio Tataíra. Já era madrugada quando o cerco começa em duas casas, mas não o encontraram, batem na porta da terceira casa[11] (o bandoleiro estava em plena lua de mel):

- Quem é?
- É os meninos do coroné...
- Ah!... Eu não abro a minha porta prá descunhecidos... Zulmira não qué qui eu abra a porta. Ela tem medo...
- Venha dar um bocado d’água a gente...
- Num tem água, não.
- Que diabo de véia da fala fina...

Proferidas essas palavras, atento a conversa e com intuito de ganhar tempo para se equipar, o sicário enfurecido vocifera:

- Qui desaforo de seu Zé Pereira, mandá incomodá os homi essa hora, apôis vocês tão pegado cum Meia-Noite, nêgo nascido em meio de desgraça.

Sem demora, inicia o fogo contra a tropa... após uma hora de tiroteio e ofensas de ambas as partes, o cangaceiro brada:

- Canaias, o qui vocês quére, chega já. Cabra de barro num aguenta tempo.
- Vem aqui fóra, nêgo ladrão!
- Ladrão, é vocês, qui quére robá a roupa de minha muié, magote de peste!

Depois de algum tempo, o cangaceiro pede para o grupo cessar-fogo e que permitisse a saída de Zulmira, sua mulher, mas o pedido foi ignorado e o tiroteio se intensificou até amanhecer, apesar disso, o bandido volta a zombar:

- Rapaziada, vocês são de barro? Esse mangote de peste tá cum fome... Entre, venha tomá um cafezinho cum queijo de mantêga...
- O café qui nós qué é ti passá nas corda.

Em seguida, ouve-se uma voz cantada de dentro da casa sitiada:
"Si quizé sabê meu nome
Faça favô preguntá
Eu me chamo é Meia-Noite
Canário de bom lugá
Eu sou um carnêro fino
Do colo de minha Iaiá!
É Lampe, é Lampe, é Lampe
O Virgolino é Lampeão
É o dedo amolegando
Embolano pelo chão!”

No alvorecer, próximo ao local do tiroteio, as Forças comandadas pelo Tenente Manoel Benício, Tenente Francisco de Oliveira e o Sargento Clementino Furtado (Quelé) foram alertadas. Logo, reuniram o efetivo de 84 homens e rumaram para o campo de luta. Ao ouvir o clangor da corneta, berra furioso:

- Sustenta a ispingarda, canaias pôde, qui nêgo vai simbora.

Debaixo de uma saraivada de balas feriu alguns homens e também foi ferido[12], ainda assim, conseguiu escapar. A Força seguiu o rastro de sangue, porém o perdeu de vista.

Passaram-se seis dias, o Comissário de Polícia de Patos, Manoel Lopes Diniz e quatro companheiros encontraram Meia-Noite gravemente ferido. Mesmo assim, resistiu à prisão, disparando dois tiros de parabellum contra o grupo que, rapidamente revidou, e acabou matando o temido bandoleiro no auge dos seus 22 anos.


NOTAS:

[1] Nomes - Antônio Augusto Feitosa (ALMEIDA, 1926); Antônio Augusto Correia (MELLO, 2013); José Tiago (LIRA, 1990).
[2] Olho d’Água - povoado, subordinado ao município de Piranhas, posteriormente Distrito de Olho d’Água do Casado, pela Lei Estadual nº 1473, de 17 de setembro de 1949.
[3] Espírito Santo - atual Inajá – PE.
[4] Terto Cordeiro - Tertulino Cordeiro era da família Marcos.
[5] Diversas ações - As mais importantes foram: O assalto a residência de Joana Vieira de Siqueira Torres, a Baronesa de Água Branca (26.06.1922) e  o ataque à cidade de Sousa - PB (27.07.1924).
[6] Rs 9:000$000 (9 contos de réis ou 9.000 mil-réis) = 9.000.000 (9 milhões de réis) - Conversão para Real = R$ 250.000 (Duzentos e cinquenta mil reais).
[7] Érico Almeida (1926), afirma que foi no final do mês de setembro de 1924.
[8] Sítio Tataíra - nos limites do município de Princesa – PB com o de Triunfo – PE. (ALMEIDA, 1926).
[9] Mulher -  Alexandrina Vieira (Zumira). (DANTAS, 2018).
[10] Princesa – PB - atual Princesa Isabel - PB.
[11] Casa - Alguns autores/pesquisadores afirmam que era uma casa de farinha, outros que era uma casa velha.
[12] Ferido - em uma das pernas.

FONTES:

ALMEIDA, Érico de. Lampião: sua história. João Pessoa: Editora Universitária, 1996. [Fac-similar à edição de1926].

DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião na Paraíba: notas para a história. Natal – RN: Polyprint, 2018.

LIRA, João Gomes de. Lampião: memórias de um soldado de volante. Recife: FUNDARPE, 1990.

MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado: II. A guerra de gerrilhas (fase de vinditas). Petrópolis - RJ: Vozes, 1985.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: violência e banditismo no nordeste do Brasil. 5. ed. São Paulo: A Girafa. 2011. 


http://blogdomendesemendes.blogspot.com

terça-feira, 4 de junho de 2019

O BOBOCA E O PILANTRA

Por José Mendes Pereira
Ninguém fica imune de um pilantra. Ele acompanha todos os passos de um sujeito. Geralmente, só anda bem vestido, de boa dicção, mas existe também o que não fala interessante e nem se veste bem. Todo ladrão é pilantra, mas nem todo pilantra é ladrão. O pilantra é esperto, malandro no modo de dizer, astucioso, sem vergonha e usa a sua esperteza para se sair bem. Geralmente o pilantra não rouba nada de ninguém. Não é agressivo. Aceita qualquer reclamação com um simples gesto e com risos sarcásticos. Pelo o seu jeito de falar impressiona qualquer indivíduo, principalmente aquele que não gosta de diminuir as pessoas. Gargalha com facilidade e não duvida do que o sujeito diz. Este falcatrueiro o que quer é conhecer de perto o comportamento do indivíduo para ludibriá-lo com facilidade e levar sem roubar. O indivíduo entrega com as suas próprias mãos.
Já se passaram muitos e muitos anos que isso aconteceu comigo. Nesse tempo eu era um jovem boboca (ou continuo sendo) que havia saído da "Casa de Menores Mário Negócio". Eu era funcionário da Editora Comercial S. A. que publicava livros de escritores, orçamentos das prefeituras, notas fiscais, recibos etc). Eu entrei nela através do gráfico Manoel Flor que já era funcionários há alguns anos e que também era interno da mesma instituição. Nesse período do meu primeiro emprego ru tinha apenas 16 anos de idade.
O pilantra que eu vou o chamar de José dos Alagadiços por não mais saber o seu nome devido os longos anos que já se passaram era um bom violonista, e este residia em outra rua próxima a Almirante Barroso a que nós morávamos. Como o Raimundo Feliciano (todos o conheceram nas minhas histórias da "Casa de Menores", e que infelizmente em fevereiro deste ano de 2019, ele faleceu aos 68 anos de idade) era proprietário de um violão, e sempre nos finais de semanas, à noite, na calçada da instituição, na Almirante Barroso, nos Pereiros, Raimundo Feliciano, outros tantos e eu, ficávamos ali arranhando algumas músicas da época. Com exceção do pilantra os que ali estavam, quem mais sabia tocar violão era o Raimundo. Eu já sabia, mas nem tanto, e continuo sendo um péssimo violonista.
Como o José dos Alagadiços morava perto da instituição sempre vinha à calçada onde nós da instituição ficávamos. Lá, ele era a grande estrela, por ser o melhor violista presente. Tocava com muita facilidade e com competência "Gotas de Lágrimas" e outras músicas do Dilermando Reis. Quem é tocador de violão assim como o Ruy Lima que faz parte do nosso grupo e outros e outros conhecem muito bem músicas do Dilermando Reis, que foi um dos maiores violonistas do Brasil.
Nesse dia era um sábado, final de dezembro, e acho que o ano era 1970, e já eram mais de 12 horas quando eu saí da Editora levando comigo o meu 13º. salário, além do soldo da semana, porque a empresa nos pagávamos semanalmente.
Dinheiro no bolso saí a pé da rua Alfredo Fernandes (rua da Editora) e pequei a Rua Tiradentes que faz cruzamento com a Alfredo. Segui para o Sindicato da Lavoura onde eu estava morando. Assim que entrei na Tiradentes tirei o pacote, valor do 13º. e de cabisbaixa, mesmo caminhando, fui conferindo nota por nota.
Pela foto abaixo dá para você saber o meu trajeto até chegar em casa. Subi a calçada e continuei andando e conferindo o dinheiro, e logo fui interrompido pelo José (violonista) que acredito que ao longe, naquele momento me observava contando o dinheiro. Na minha visão, mesmo de cabisbaixa eu vi um sujeito à frente, mas como antigamente ser roubado no meio da rua e principalmente de dia era muito difícil, não liguei muito para a pessoa que me observava. Só levantei a cabeça quando ouvi a voz me dizendo:
- Contando um dinheirinho, né Mendes? -Disse-me ele de olhos arregalados ao pacote.
- É isso aí, José. - Respondi. Hoje a Editora nos pagou o 13º. salário.
- Há quanto tempo que eu não pego em um monte dinheiro assim. - Disse-me ele rindo e apresentando a falta de dentes em sua boca, porque ele era quase banguelo e ainda não tinha adquirido os outros com o protético.
E olhando em direção à praça que existe lá, isto é, em frente a este prédio da foto, lá estava uma carroça com um animal sob uma árvore, mas do outro lado da praça. E sem demora me disse:
- Mendes, Você está vendo aquela carroça? - Dizia ele apontando-a com o indicador.
- Estou.
(Os valores eu vou os criar, porque devido o tempo eu não sei mais. Só sei que era cruzeiro e não me recordo se era novo ou velho. Mas eu vou os usar como sejam reais).
- O homem está me vendendo por mil reais, só que eu não tenho o dinheiro completo. Fiz o negócio com ele, mas nesta condição, até 3 hora da tarde. Se eu não arranjar vou perder a carroça. Daria para você me emprestar 500,00 reais? Hoje à tarde vou receber 500,00 Reais dos serviços que prestei a J. P. Sousa. (J. P. Sousa era pai do Paulinho da Honda localizado à Rua José de Alencar, mas no centro da cidade. Mas aquilo era meio de me ludibriar). Assim que eu receber - continuava ele - vou deixar lá no sindicato o valor que me emprestar.
De bobo, separei a quantia e o entreguei.
- Satisfeito com a besteira do bobo, disse-me:
- Só você Mendes, poderia fazer isso por mim. Muito obrigado, cara!
Disse-me isto e não mais se demorou. Saiu às pressas afirmando que iria pagar o valor da carroça ao homem.
À tardinha aguardei a sua chegada para me pagar, mas não me apareceu. Lá para seis horas da tarde eu fui à rua Cunha da Mota nos alagadiços e igapós do bairro Pereiros onde ele morava. Mas não o vi. No dia seguinte, logo após às nove horas fui lá novamente. Mas fui informado que o José havia se separado da mulher e deu no pé. Para onde ninguém sabia.
Perdi por completo e mais um bobo nascera nos alagadiços do bairros Pereiros.
Para Cleonice CastroClécida CastroRuy LimaMazé RodriguesAnalucia GomesLindomar SilvsaDanielle HoursEdna BezerraJose G DinizVoltaseca VoltaSolange SolErineide VieiraJanio OliveiraAlzimar PereiraMarcia Filardi Neliton SilvaVerluce FerrazValceli VerescondeJosé João SouzaLuiz SerraChagas NascimentoDarlan Deily João FernandesJosé Augusto SousaTaisa BezerraAlberto Salgado Bandeira FilhoAllison Flor LalinhoWilliams SantosAntônio EustáquioEraldo XaxaAssis Nascimento NascimentoAntonio Dos Santos LimaFrancisco Pereira LimaFrancisco Davi LimaRenilson SoaresJorge BrazJoao Augusto BrazMaria Da Graça Rosado de AraujoVeridiano Dias ClementeAna Maria TresseAntonio JoseAretuza Simonetta de OliveiraMargarida Santana Lopes NascimentoThais FidelisBenedito Vasconcelos MendesAluísio Barros OliveiraSusana GorettiAgripina SilvaLirete RochaLaete Vidal de AmorimDeocele LucenaJuh Gurgel.
Foto 1: Funcionava a Rádio Difusora, Cine Caiçara e Editora Comercial. No começo da direita da foto você ver uma parte do nome Editora. Este prédio fica, aliás uma parte porque a outra já foi substituída por prédio, de frente para o Norte.
1 - Na foto dá para você ver da direita para à esquerda o meu trajeto em direção onde eu morava. A foto é antiga, mas não me recordo se estas árvores são daquele tempo. Mas acho que não. Saindo do Caiçara pega-se a Tiradentes que fica do Norte para o Sul, mas ele é de frente para leste
2 - Quando eu saí desta rua Alfredo Fernandes entrei após o carrinho do Raimundo Confeiteiro e tomei a Tiradentes.
3 - carroça.

Imagens do google. Se eu colocar as fontes das fotos não consigo publicar este. Dá problema. e não posto.
4 - José Pereira de Souza, Lindinalva Paula e Javan Pereira.

UMA TRAIÇÃO SEM LIMITE

Por José Mendes Pereira


Talvez você leitor, irá pensar que isto que segue é fictício, mas não o é, foi real. Só em ler quem conheceu a família sabe muito bem os nomes destes personagens. Vou usar nomes criados para preservar os dos infelizes que participam da história, e principalmente o nome da empresa. 

Mauro Gurgel era empregado à noite ocupando a função vigilante na empresa “Dorabela” vendedora de móveis de todos os modelos. Durante o dia fazia bicos na oficina do seu sogro Manoel Tomás ocupando a função de marceneiro, e o velho sogro o tinha como um filho. Vivia uma vida de pobre, mas era muito organizado, e tudo fazia para não deixar os seus dois filhos com menos de 4 anos fora dos padrões como pai.

A esposa Maria das Neves não era muito filé assim como costumam dizer, quando uma dona de casa não mantém o respeito na sua própria vida feminina. Vez por outra, à noite, Maria das Neves dava uma saidinha ou uma puladinha de cerca para qualquer lugar, isto sem destino, e não queria nem saber que os seus filhos pequenos ficassem sozinhos em casa. O seu maior desejo era satisfazer as suas vontades sexuais com qualquer desocupado que o encontrava por aí, bebendo, fumando e participando de forrós, onde a sanfona abria o seu fole.


O Mauro Gurgel nunca sonhou que tinha em casa uma traidora porque ele levava a vida no trabalho, principalmente à noite, e confiava bastante nela, e assim nesse modo de confiar ela o fazia de gato e sapato. Como não tinha nada a ver com isso a vizinhança nunca dissera ao Mauro Gurgel que a sua companheira o traía, e geralmente, altas horas da madrugada, quando os filhos acordavam, ficavam ali, chorando até o dia amanhecer, porque estavam sem a mãe.

Certo noite, por não andar muito sadio o Mauro Gurgel recebeu a autorização do chefe da empresa “Dorabela” para ir repousar em casa, já que se encontrava meio doente, e ao chegar, seus dois filhos estavam em soluços, porque a mãe havia saído de casa muito cedo. 

Pela manhã quando o relógio já marcava 9:00 horas do dia ela chegou em casa. O Mauro quis saber por onde andava e ela deu desculpa esfarrapada, que tinha ido à mercearia próxima de sua casa, e um sujeito a ofereceu Coca-Cola, bebeu, e ao sair de lá, não soube mais de nada. 

O Mauro acreditou desacreditando. Mas dias depois, isto foi repetido por ela, e nesse dia, assim que ele chegou pela madrugada do serviço e viu as crianças sozinhas, foi direto ao sogro, e participou do que estava acontecendo no seu casamento. 

Manoel Tomás seu sogro era um homem que gostava bastante do genro por ele não botar dificuldade em nada que o velho queria fazer ou precisava. Era como se fosse um filho que não nascera em sua casa. 

Ao saber, revoltou-se com o pouco respeito da filha com o Mauro. E sem muito pensar, foi curto e grosso, dizendo-lhe que se algum dia isto tivesse acontecido com a sua mulher e  assim que ela chegasse em casa, ele a mataria.

O Mauro Gurgel apenas ouviu o que dissera o seu sogro e no momento não lhe veio nenhum mal pensamento que um dia pudesse fazer contra a sua esposa, afinal, mesmo mantendo-se no erro, adulterando, talvez, porque ele nada sabia, apenas ela saía de sua casa para se divertir, ela era a mãe dos seus dois filhos, e não a trocaria por mulher nenhuma, o mais importante era cuidar dos filhos e fazê-los felizes, muito embora, vivendo na companhia de uma mãe que nada valia.

E aconteceu que outra noite, ao chegar, encontrou os filhos sozinhos, porque a Maria das Neves andava de bobeira pelo mundo afora. O Mauro não quis mais aguentar aquela atitude da Maria. Ficou aguardando a sua chegada. Ela nem imaginava que ele já estava em casa.  E assim que meteu a chave na porta, abriu-a, e ao entrar, foi surpreendida  por uma paulada na cabeça, caindo já pronta. 

O Mauro não esperou mais por nada. Puxou-a para livrar da porta, em seguida, fechou-a, cobriu  o corpo com um pedaço de lona para os filhos não perceberem, e cuidou de acordá-los para fugir com eles, enquanto a vizinhança não percebesse a morte que ele acabara de fazer naquele momento. E assim que preparou tudo, fechou a porta e foi-se embora, levando consigo os dois filhos. 

Dois dias se passaram e ninguém tinha notícia daquela família, principalmente das crianças que de momento a momento estavam fora da casa, brincando com bolinhas de gude em barrocas improvisadas,  e também a Maria das Neves que misteriosamente desaparecera da vizinhança.

No terceiro dia a vizinhança estava preocupada, e alguns aproximaram-se da porta da casa. E ao chegarem, perceberam que o cheiro era insuportável, e tinham plena certeza que algum vivente morrera lá dentro. E toda vizinhança se responsabilizou pelo que iria fazer. Arrombar a porta da casa para certificar o que lá dentro morrera. Aberta a porta, e ao levantarem a lona que estava sobre, viram que era o corpo da Maria das Neves. 


Feito o enterro e depois as investigações e o sumiço do esposo com os filhos, os peritos chegaram à conclusão quem havia matado a Maria das Neves. Fora morta pelo  seu próprio marido Mauro Gurgel. Depois de alguns meses ninguém sabia para onde o Mauro Gurgel tinha fugido com os seus dois filhos. 


Com o passar dos tempos o Manoel Tomás estava totalmente desorientado com a morte da filha, a ausência dos netos que nunca mais vira, e a perda da amizade do genro, porque ele era como um filho.  


Tendo conhecimento o lugar e a fazenda onde morava o genro Mauro, o assassino da sua filha, Manoel Tomás resolveu fazer uma visita aos netos, e quem sabe, ao próprio assassino da sua filha. Mas esta visita seria sem vingança, porque a única culpada do que acontecera tinha sido a sua filha a Maria das Neves. Sem ninguém saber, marcou o dia e se mandou em busca de lá.


Já eram 4 horas da tarde quando o Manoel Tomás chegou à fazenda. O Mauro estava nas obrigações de curral, porque havia perdido o emprego, e por onde andou só conseguiu ser operário de fazendas. Ali, ele estava mungindo uma faca parida de poucos dias, e ao ver o ex-sogro aproximando-se tentou correr, pensando numa possível vingança. Mas o Manoel Tomás disse-lhe:


 - Fique aí! Nada tenho para fazer contra você. O que passou, passou.  Nem arma tenho. - Dizia ele levantando a camisa. Vim apenas para rever os meus netos e mais nada. A saudade deles é grande.


Mesmo cismado o Mauro concordou no que garantira o ex-sogro, e logo o levou para casa. Os netos gêmeos já se  aproximavam dos 10 anos de idade, e lá, aconteceu o grande abraço entre netos  e avô.


Os filhos ainda não tinham conhecimento que a mãe fora assassinada. Imagina quando eles souberam que quem matou sua mãe foi o seu próprio pai.


Durante toda a noite o Manoel Tomás dormiu sob o alpendre da casa da fazenda. No dia seguinte, ambos foram ao curral para fazerem algumas obrigações. 


O Manoel Tomás pôs-se a pensar: ali, misturado com um homem que findara a vida da sua filha, e por último, ele sendo companheiro do  assassino de quem cuidou com carinho quando era pequena. Mas, imaginou que seria uma covardia vingar a morte de quem não quis ter responsabilidade, fazendo todo tipo de traições com o seu cônjuge, um grande homem e trabalhador. 


E no vai-e-vem do seu pensamento, resolveu vingar o feito. E aproximando do Mauro com um pedaço de pau derreou sobre o crânio do ex-genro, deixando-o cair sobre uma cocheira. Como ficou sozinho  no curral, fugiu às pressas levando consigo apenas a saudade dos netos, e adeus, Mauro!







  







terça-feira, 28 de maio de 2019

O SABIDO BESTA E O BESTA SABIDO

Por José Mendes Pereira
Nesse mundo do meu Deus têm sábios em abundâncias como também sabidos, mas existem mais sabidos do que sábios. Geralmente, os sábios são facilmente ludibriados pelos sabidos que os deixam de queixos caídos, se lastimando da bobeira que deram, ajudaram alguém, mas saíram perdendo.
Como eu já fiz quase de tudo para sobreviver porque sempre achei que o provérbio que diz: "quem não sabe perder não sabe ganhar"é mais do que certo, já fui enganado de várias maneiras, umas, suportáveis, outras, insuportáveis.
Quando eu era proprietário de uma serralharia tendo o nome de fantasia "Serralharia Karliano", nome de dois filhos: Adriana e Adriano, ambos com o sobre nome de Karl(a) e Karl(o) algumas vezes fui ludibriado por espertos, mas a última foi a que nunca esqueci, porque o sabido usou toda a sua astúcia para me enganar facilmente, como se eu fosse mesmo um besta qualquer. E não passei de besta, fui mesmo um bestão.
O sabido tinha mais ou menos 25 anos de idade, no máximo, moreno, cabeludo, de olhar firme, boné sobre a cabeça, com uma aparência de mente com distúrbio, mas só a aparência de besta. Chegou em minha serralharia procurando serviços, principalmente de serralheiro, segundo ele, porque ali ele já vira de cara a minha profissão, confeccionador de portões de ferro estilo simples e coloniais, grades, pega-ladrões. Era a sua profissão também, assim afirmara ele enquanto me pedia uma oportunidade, e se dizia ser apaixonado pela queima de eletrodos. Sabia fazer tudo: cortava ferros, soldava, lixava, esmerilhava para deixar as peças bem acabadas, pintava etc, assim ele mesmo se promoveu. Era um exímio conhecedor desta profissão, segundo as suas atitudes apresentadas naquele momento.
Quando eu disse que ele ficava para comigo trabalhar na serralharia abriu um riso do canto da boca ao outro. E nem foi necessário eu mandar, de imediato, deu início uma limpeza geral. O que era de ferragens espalhadas pelo chão da oficina o sábio foi recolhendo todas, e encostando-as aos pés das paredes. Diante disto, vi que eu tinha adquirido um ajudante de serralharia de primeira categoria.
Quando já havia se passado mais ou menos 10 minutos de sua permanência dentro da oficina juntando as ferragens e as colocando aos pés das paredes, de olhos dirigidos a mim, o sabido me perguntou:
- O senhor bebe?
- Já bebi, mas já se passaram mais de 15 anos que não ingiro mais bebida alcoólica.
- O senhor é fumante?
- Sou sim. - Respondi, porque eu ainda era fumante.
- O que o senhor diz sobre cigarro?
- Eu fumo, mas sei que é muito ofensivo. Arrependi-me de ter me viciado. E até existe um ditado que diz: "cigarro é uma brasa numa ponta e um imbecil na outra".
O sujeito que nem me lembro mais do seu nome caiu em risos. E com alguns segundo, disse-me:
- Eu também sou fumante..., e se não for muito incômodo de minha parte daria para o senhor me emprestar um dinheirinho para eu comprar uma carteira de cigarro?
- Lógico que sim. - Respondi sem nem imaginar qual era a sua intenção.
Procurei nos bolsos da calça uma nota de menos valor para que ele fosse comprar o cigarro, mas não a encontrei. Como eu estava com uma quantia em dinheiro para fazer compras de uns materiais e confeccionar um portão de um cliente, peguei uma nota de "Cem reais" entregando-lhe, dizendo:
- Ali vende. - Dizia eu apontando a mercearia que ficava a uma distância mais ou menos de 60 metros.
Ele de esperto pegou o dinheiro e me disse:
- Eu vou às pressas e venho correndo. É coisa rápida. Não perderei tempo. Sou homem de palavra. - Dizia-me ele com o olhar firme em minha direção.
E assim ele fez. Saiu da oficina às pressas e tomou rumo à mercearia. Eu de lá, fiquei o observando. Ele passou para o outro lado da rua, pegou a calçada e saiu às carreiras. Eu pensando que aquela carreira era pela alegria de ter arranjado um serviço para ganhar o seu sustento, enganei-me
O sujeito aproximou-se da mercearia, pisou na calçada, fingiu entrar, mas não entrou. E de lá da oficina eu acompanhava os seus movimentos. Ele também me observava. Eu ciente que ele entraria daquela vez na mercearia para fazer a compra do veneno, mas outra vez me enganei. Em vez de entrar no comércio o sujeito se mandou de rua afora olhando para trás. E logo ele desapareceu das minhas vistas, não mais o avistei, porque a esquina da rua atrapalhava eu vê-lo. E adeus, serralheiro!
Foi a primeira e última vez que eu vi aquele sujeito trambiqueiro.













segunda-feira, 27 de maio de 2019

SEU GALDINO FOI CALOURO DO CHACRINHA COM ROBERTO CARLOS

Por José Mendes Pereira
Ter sido calouro no programa "A Buzina do Chacrinha", "A discoteca do Chacrinha" e "O Cassino do Chacrinha" concorrendo com qualquer cantor nunca foi tão difícil, mas concorrer com Roberto Carlos, até hoje, somente seu Galdino Borba(gato) teve a grande e merecida honra de subir aos palcos do Chacrinha e disputar uma canção com o futuro famoso cantor da juventude o Roberto Carlos. 

Enquanto viajavam em montaria para Mossoró, em um dia de feira, seu Galdino contou ao seu Leodoro Gusmão a grande honra que teve de disputar o primeiro lugar em um dos programas do velho guerreiro Abelardo Barbosa, que era apresentador do programa "A Discoteca do Chacrinha".

No caminho seu Leodoro estava ali, montado no seu animal, lado a lado ao seu Galdino, a cada passo, e sempre  tomando cuidado para não perder nenhuma explicação feita por ele, sobre a sua participação no programa do Chacrinha. 

Seu Leodoro Gusmão querendo saber como foi que surgiu esta oportunidade de seu Galdino participar de um programa famoso que era o do Chacrinha,  perguntou-lhe o seguinte:

- Compadre Galdino, como foi que esta sua ida para cantar num programa de televisão e quem lhe convidou para chegar até ao programa do Chacrinha?

- Interessante esta sua pergunta meu compadre, e eu vou te contar do começo de tudo até o fim da minha passagem pela A Discoteca do Chacrinha". Eu desde de rapazinho que aprendi alguns acordes de violão e cantava também. Vez por outra me convidavam para tocar em aniversários, casamentos, festas de debutantes, batizados... Como eu sempre tive uma voz boa, e quando eu cantava as pessoas que me assistiam me aplaudiam muito, aconselhavam-me que eu deveria tentar participar de shows de calouros, não só nos do Chacrinha", mas em outras emissoras de televisão. Com estes incentivos me empolguei, e a partir daí, comecei a mandar cartas para os apresentadores de programas de televisão, informando o talento que eu tinha, aliás, tenho ainda que é a minha admirada voz continua firme, e ainda é como se fosse do meu tempo de jovem.

- Inhô sim! - fez seu Leodoro em tom de admiração.

- O primeiro contato que tive com o velho guerreiro Chacrinha foi quando ele me respondeu a carta, comunicando que eu deveria comparecer ao seu programa em um dia de domingo.

- Sim senhor! - Confirmou seu Leodoro atenciosamente.

- Aconteceu que no mesmo ano que eu fui chamado pelo Chacrinha para participar do seu show, a quem devo muito, porque o meu nome passou a ser conhecido no Brasil, e um dos acontecimentos mais interessante que já se passou comigo, que neste mesmo dia que eu estava lá, no programa do guerreiro, adivinha quem também está lá comigo, meu compadre!

- Não tenho a menor ideia...

- Roberto Carlos, compadre Leodoro! Ele estava lá para concorrer o prêmio de bom cantor comigo e mais outros. 

- Tenho certeza que o senhor se sentiu muito honrado...

- E ponha honra nisso! - Atalhou seu Galdino em tom de orgulho. 

- Isso é que chamo de sortudo e dono de talento! - Deu um pouquinho de corda seu Leodoro ao compadre inseparável.

- Pois bem, dizia seu Galdino, na tarde da nossa participação e apresentação no programa do Chacrinha me senti um homem famoso. Primeiro a cantar foi Roberto Carlos que foi bastante aplaudido por aquela gente que assistia as nossas apresentações. Depois, outros e outros. Em seguida, eu cantei. Fui muito aplaudido e pelos aplausos até calculei e apostava que Roberto Carlos não iria ganhar de mim. Mas me enganei. Quando o jurado veio com o resultado o primeiro lugar foi do então Roberto Carlos. Eu fiquei em segundo e os demais ocuparam os lugares seguintes. 

- O senhor ficou no segundo lugar, compadre Galdino?

- Sim senhor! Lá nos bastidores o Chacrinha me disse que quem deveria ter ficado com o primeiro lugar era eu, mas ele não tinha força para voltar atrás a classificação. O mais interessante foi que quando terminou tudo, lá se vinha Roberto Carlos me procurando. E assim que me viu, disse-me: 

- Mas cara, como tu cantas! A tua voz é extravagante e além do mais, uma brasa, mora!

- Isso é que eu chamo de sortudo, compadre Galdino! - Exclamava com admiração o seu Leodoro.

- E eu brinco, meu compadre! Tudo eu sei um pouquinho.

Quando seu Leodoro chegou em casa foi até ao estábulo soltar uma rês que por lá ficara presa. E no decorrer de sua ida dizia:

- Este meu compadre Galdino mente muito. Eu tenho uma encomenda para levar um homem que conta muitas vantagens, mas o meu compadre Galdino passa dos limites. Não dará certo levá-lo, porque quando ele começar a mentir o homem que me pediu que levasse um homem mentiroso irá me matar de peia, por ter encontrado um homem tão mentiroso como é o compadre Galdino.

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quinta-feira, 9 de maio de 2019

SEU GALDINO FALA AO SEU LEODORO SOBRE A SUA PASSAGEM NO TIME DE FUTEBOL POTIGUAR DE MOSSORÓ.

Por José Mendes Pereira


Para quem gosta de futebol a Associação Cultural e Desportiva Potiguar é conhecida "Potiguar", porque é uma associação do Estado do Rio Grande do Norte, e que a equipe faz seus jogos no único Estádio de futebol de Mossoró, o Nogueirão.

O Potiguar não é o maior time do Rio Grande do Norte, mas é um dos maiores do interior do Estado, e é merecedor da maior torcida deste. Ele foi fundado em 11 de fevereiro de 1945, resultado da fusão de dois clubes da cidade o Esporte Clube "Potiguar" e a Sociedade Desportiva Mossoró.

Em 1951, o "Potiguar" veio a conquistar seu primeiro campeonato municipal. Dequinha (que mais tarde viria a jogar pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira) e Bira (que jogou no futebol europeu) foram os responsáveis pelas primeiras conquistas do clube. 

Seu Galdino Borba(gato) Mend(onça) foi um dos jogadores do "Potiguar", segundo afirmou ele a seu Leodoro Gusmão enquanto conversavam em uma tarde no seu curral. Mas algumas pessoas não respeitam seu Galdino e não querem acreditar em tudo que ele diz.

Eu, particularmente não vejo nenhum motivo  para dizer que seu Galdino Borba(gato) era um homem mentiroso. O que eu sei é que ele era um sujeito completamente polivalente. Um grande conhecedor de várias profissões, como por exemplo: agricultor, fazendeiro, vaqueiro, ourives, jogador de futebol, caçador de mel de abelha italiana e jandaíra e  principalmente, perseguidor de onças nas quebradas sertanejas. Esta última era a que ele mais entendia. Pegava onças na carreira dentro dos cerrados, e para ele, caçar onças era o seu melhor hobe. 

Seu Galdino era mais corajoso do que o tenente João Bezerra da Silva o único policial que foi capaz de matar o homem mais valente do Nordeste Brasileiro, o rei do cangaço  capitão Lampião, sua rainha Maria Bonia e mais 9 cangaceiros, todos estes eram funcionários da Empresa de Cangaceiros Lampiônica & Cia.

Sob o telhado que cobria o estábulo da sua fazenda seu Galdino e seu Leodoro Gusmão conversavam sentados em  tinas feitas de alvenaria, e o assunto bem gostoso e com muito orgulho para seu Galdino era relacionado à sua participação como titular -  jogador de futebol da "Associação Cultural e Desportiva Potiguar". 

Dizia seu Galdino ao compadre que na adolescência foi um dos melhores jogadores de futebol em campos de poeira, isto é  improvisados, e com o passar dos anos deixou os campos de poeira e conseguiu participar de campos oficiais, com regras, com traves, com bolas oficiais, com  juízes,  bandeirinhas, gandulas, mais uma enorme torcida e tudo mais. E devido o seu bom desempenho como jogador foi convidado, e posteriormente contratado para ser um atleta da equipe do "Potiguar" de Mossoró, assumindo a posição atacante, porque este clube tomara conhecimento do seu talento com bola.

Nessa equipe seu Galdino foi a grande estrela, e até hoje, depois de muitos anos que passou lá pelo "Potiguar" é lembrado por todos os jogadores e membros dali, porque ficou registrada a sua admirada participação naquele grupo. Equipe que apresentava e apresenta até hoje total eficiência. 

No primeiro jogo "Potiguar x Baraúna" ambos de Mossoró que fez como titular desta primeira equipe, contava seu Galdino ao compadre Leodoro, logo no primeiro tempo, fez 8 gols (de acordo com a regra seria goles, mas é mais usado gols), que nunca tinha acontecido em partida de futebol  do Brasil, e nem em país nenhum, um único jogador balançar a rede com 8 golse principalmente, apenas em um tempo de 45 minutos.  

Seu Leodoro Gusmão ouvia com atenção o que dizia o seu compadre Galdino Borba(gato), mesmo pigarreando, mas fingia ser irritação na garganta, como se fosse excesso de secreção acumulada. Mas na verdade, ele achava que seu Galdino estava enfeitando muito o assunto, e jamais tomara conhecimento que seu Galdino tinha jogado em times  de futebol oficiais. Mas não devia duvidar.   

Seu Galdino dizia que a bola parecia estar apaixonada por ele. Sempre ela procurava os seus pés. Quando bem olhava ela já vinha à sua direção, e quando ele apoderava-se da bola, era nesse momento que ele fazia a torcida delirar, gritando fortemente o seu nome: "- Galdino! Galdino! Galdino!". Mas isso é o que chamamos de talento. Seu Galdino nasceu para ser mesmo um atleta de campo, onde tem trave e gramado. Em algumas vezes, a bola tomava rumo diferente e caía dentro da rede. 

Em um momento seu Leodoro Gusmão quis saber o que sentia o seu coração quando a torcida delirava. E apoiando-se um pouco sobre a tina que a tempo se sentara, perguntou-lhe:

- Compadre Galdino, eu suponho que é  muito bom quando as pessoas gritam o nome da gente em tom de elogios. E com tudo isso, como ficava o seu coração nessa ocasião de delírio da torcida do "Potiguar" gritando e batendo palmas, só homenageando o seu futebol?

- Nossa! Não há coisa melhor do que ser admirado dentro de um campo de futebol ou qualquer ambiente. Eu nem sei explicar o tamanho da emoção. Mas é gratificante, compadre Leodoro.

Segundo seu Galdino na sua segunda participação na equipe "Potiguar", jogando contra o "Baraúna" local, logo no primeiro tempo, fez 11 gols.  O goleiro do "Baraúna ficou totalmente atordoado de tanto pular para evitar gols, mas não teve jeito, foi surrado com 11 lindos gols.

A galera não parava de gritar quando ele se apoderava da bola. O que era de jogadores do "Baraúna" todos corriam atrás dele. Nesse dia, até o goleiro deixou a sua trave e fez carreira para ajudar os demais membros do Baraúna. 

Teve momentos que três ou quatro jogadores abandonaram o campo e ficaram ali ao lado do goleiro. Com as mãos eles não podiam pegar a bola, mas com pés e cabeças podia evitar mais outros gols. Ele parecia que estava voando sobre o gramado. 

Dizia ele que no segundo tempo, o seu admirado desempenho, até os torcedores do "Baraúna" aplaudiam o seu futebol. Dava cada chapéu nos seus adversários, e que a plateia não segurava a sua emoção, o seu grito de admiração estava por todo campo.

Mas com tanto talento seu Galdino Borba(gato não seguiu o futebol, porque o tempo não oferecia muito dinheiro. Resolveu abandonar de uma vez por toda a carreira de jogador e ficou fazendo companhia aos pais. 

Seu Galdino foi convidado por outros times e também para participar da seleção brasileira, mas ele não aceitou. O que ele queria mesmo era ficar juntinho dos seus pais e seus conterrâneos mossoroenses.

Mais uma vantagem que seu Leodoro ouviu do seu compadre Galdino.




O CANGACEIRO GORGULHO.

    Por Fabio Costa Este Cangaceiro estava no grupo de Mané Moreno em Poço da Volta quando em meio ao forró foram emboscados pela volante de...