segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

SEU GALDINO E OS VELHINHOS

Por José Mendes Pereira

Seu Galdino andava pela manhã de mata adentro sem destino, e até invadindo terras alheias, quando se deparou com um velhinho com mais de 110 anos de idade. Seu Galdino quis saber para onde ele estava indo, vez que a sua idade e seu porte físico ofereciam bastantes perigos por ele estar no meio daquela mata totalmente desacompanhado.

O velhinho disse-lhe que não se preocupasse. Aquele seu caminhar já era de longos anos, uma obrigação que tinha, todos os dias, naquele horário, pela manhã, ele saía da sua residência para visitar em sua casa o pai e a sua mãe.

- Mas quantos anos o senhor tem? – Perguntou-lhe seu Galdino.

- Eu tenho 110 anos já vividos com muita saúde diante do “Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Seu Galdino duvidou, porque ele com aquela idade toda, era muito difícil ainda ter pai e mãe vivos. E perguntou-lhe o seguinte:

- O senhor me deixa ir à sua companhia até à casa dos seus pais para que eu os conheça?

- Mas não seja só por isso, senhor! Desejar conhecer os meus pais para mim é uma grande honra. Eles estão bem velhinhos, mas tudo que se dizem eles ouvem com atenção e entendem muito bem.

E se abalaram os dois em busca da casa dos pais do velhinho. Ele sempre à frente do seu Galdino. E assim que chegarem lá, estava a velhinha de cócoras ao chão. Seu Galdino a cumprimentou e ela sem se levantar do chão o recebeu muito bem, esboçando um sorriso de alegria, até fantasiado, agradecendo a Deus os anos já vividos. A velhinha ainda andava, mas com um pouco de dificuldades. Ali, conversaram um bom tempo. Ele fez uma porção de perguntas em relação de tantos anos vividos. Ela só o respondendo.

Terminou com esta pergunta:

- Quanto ano a senhora tem?

- Completos eu tenho 130 anos. – Disse a velhinha com alegria de vida e com esperança de mais dias que iriam vir.

E virando-se para o velhinho seu Galdino perguntou-lhe:

- Agora onde está o seu pai que eu quero o cumprimentar?

- Ele está lá dentro do quarto...

E saiu levando seu Galdino para conhecer o seu pai. E ao entrar no quarto ele viu que o velhinho não estava mentindo. Dentro de uma rede o seu pai permanecia deitadinho, ali, só o caquinho de gente, mas lúcido, capaz de um só pulo se levantar da rede a qualquer momento. E logo perguntou:

- Quantos anos o senhor tem?

E se sentando à beira da rede, respondeu-lhe:

- Eu tenho 140 anos.

- E o que faz com que uma pessoa viva tantos anos assim?

- Para se viver bem meu filho, existem várias maneiras que levam o homem/mulher viver muitos anos.

- O senhor pode exemplificar alguns? – Perguntou-lhe seu Galdino.

- Não seja só por isso..., casar para ter um cônjuge que lhe dê carinho e amor, que cuide bem e que o zele. Digo, casar no sentido de casal, não casamento religioso e nem tão pouco diante da justiça. Dois amores que se gostem assim é que é o casamento. O ser humano se não for zelado pelo seu parceiro morrerá mais cedo. Olha sempre para o seu cônjuge com carinho e não discuta com ele. Se o cônjuge falecer não fica chorando por muito tempo. A vida não admite que se chore em exagero por quem se foi e não voltará mais. Cuida de arranjar outro cônjuge o quanto antes para substituir o que se foi. Ninguém é insubstituível. Na terra o único homem que é insubstituível é o Jesus Cristo.

- Sim senhor! - Seu Galdino ouvia o velhinho com atenção.

E continuou o velhinho: - Não ouvir o que o outro diz do indivíduo. A boca do ser humano é uma verdadeira navalha afiadíssima e corta tudo o que ver pela frente. Não fumar, porque o tabaco, é a maior destruição no corpo humano, caso sejam ingeridas substâncias dele ao corpo. Não beber bebidas alcoólicas de forma alguma. Não perder noites de sono no trabalho e nem em farras. Para ter um corpo saudável tem que o deixar descansar muito. Ter fé em Deus e ajoelhar-se sempre diante dele para agradecer o que ele tem feito pelo indivíduo. Só compre se puder pagar, senão irá perder sono, e isto diminui dias de vida. Não comer alimentos enlatados ou congelados. Alimentos enlatados e congelados já estão vencidos e não se deve consumi-los. Neles contêm uma porção de bactérias invisível. Beber água potável. É bem melhor beber água de cacimba do que tratada. A água tratada e gelada não mata os germes do corpo do homem. Conserva os germes vivos, principalmente água mineral. Ter sempre alguns amigos sem exagero, isto é, regrados. O homem sem amigos é como um lobo solitário, estressado, triste e morrerá mais cedo.

- Estou entendendo bem, fez seu Galdino.

Continuou o velhinho: - Não deixar de comer pelo menos um ovo cozido, beber a água de um coco todos os dias, e beber leite de qualquer fêmea quadrúpede. Ver o nascer e o pôr do sol todos os dias da sua vida e admirá-lo. É a maior beleza da criação de Deus. Ao anoitecer, é bom observar a lua passeando no universo. Sempre que puder, faça uma visita ao mar para sentir o cheiro e o balé das águas salgadas, e veja que maravilha o Deus criou. Não usar armas como seja para se defender. A arma encoraja o homem e poderá ter um fim triste. Comer com farinha rapadura preta do Cariri. Comer carne de sol. Levantar cedo e receber o sereno da madrugada. Não duvidar e nem teimar com ninguém. A teimosia estressa, e se estressa, poderá causar mortes.

Em frente à casa dos velhinhos passava um rio e mantinha uma porção de água corrente. Seu Galdino querendo ver se o velhinho teimava, disse em voz alta:

- Interessante! Todos os rios que eu os conheço descem as água de ladeira para baixo. O seu rio senhor, aqui na sua propriedade, faz isto ao contrário, sobe de ladeira acima.

- Sim senhor! O rio daqui, da minha propriedade é assim como o senhor afirma.

O velhinho não teimou de jeito nenhum. Concordou a mentira que disse seu Galdino.

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domingo, 16 de dezembro de 2018

QUASE QUE O MATOU POR PIEDADE


Por José Mendes Pereira

Sei que você poderá achar que esta história é fictícia, mas não é. Muitas de minhas simples histórias aconteceram mesmas, só que eu não posso citar os nomes verdadeiros para que ninguém venha me reclamar ou me prejudicar no futuro, por isso crio nomes para os personagens das histórias que me dão direitos a me defender caso seja preciso por meras coincidências.

Eu conheci muito a pessoa que foi vítima nesta minha simples história, mas o causador do reboliço eu apenas o conhecia passando em frente à minha casinhola, mas isso em anos muitos distantes, e nunca mais o vi e nem sei se ainda é vivo.

Jorge é vendedor ambulante de roupas, sandálias, chapéus de palha, de massa, lençóis, toalhas, colchas e além de restritas redes. Dentro da cidade de Mossoró o Jorge conhece todos os bairros e sabe muito bem os bons e péssimos fregueses. Afinal, é o maior vendedor que todos os dias o Jorge bate nas portas dos mossoroenses para vender as suas mercadorias. O Lúcio é um jovem que tem mais ou menos 30 anos e é o seu ajudante de confiança, além da boa amizade que os dois mantêm que nasceu no meio das vendas, das cachaças e das farras.

Infelizmente, o Jorge agora está doente e muito doente. Procura o médico para consultá-lo e saber o que está acontecendo com ele. O médico exige exames. O Jorge faz o possível e realiza todos os exames solicitados pelo esculápio.

Com todos os exames em mãos que recebera dos laboratórios o Jorge vai à presença do médico para receber o resultado. Mas o pobre homem está condenado para morrer. Está com câncer já caminhando para fase terminal. O Jorge acama-se e não tem mais milagre que o faça ser curado.

O Lúcio está apavorado e muito apavorado. O único amigo de fé que tem vai desaparecer do mundo. Sua permanência no seu meio não demorará. O dia todo o Lúcio está pensativo. Mesmo assim, não sabe com será a sua vida de agora em diante. Não sabe fazer outra coisa a não ser ajudar o amigo. É um jovem que pouco valorizou os estudos.

O Jorge passa o dia todo em gritos. As dores que são responsáveis pela sua partida para outra esfera são terríveis, e o deixam sem sossego sobre o seu leito. Quase não dorme nada. Passa a noite toda em claro e se lastimando do que ganhara. Chama por todos os santos e nenhum aparece para ajudá-lo, pelo menos para que ele morra sem sentir dores. Os dias estão se passando e o Jorge está emagrecendo muito, e não restam em seu corpo mais do que 50 por centro de carnes.

O Lúcio acompanha aquele sofrimento com o coração partido, e sem mais esperança de uma melhora. A cada momento, o Jorge quer morrer mais rápido. Precisa se livrar daquelas dores. O medicamento que faz passar as dores não mais faz efeito.

O Jorge pede ao Lúcio que o mate o quanto antes, porque não mais suporta tamanhas dores. A Lúcio não aceita o pedido que lhe fez o Jorge e diz que não tem coragem de liquidar a vida de ninguém, principalmente a vida de um amigo.

O Jorge implora, implora até que o Lúcio se convence e decide assassinar o amigo de muitos anos, não por maldade, mas para acabar com aquele sofrimento terrível de uma vez por toda do seu amigo.

O Lúcio quer evitar, mas é novamente implorado pelo Jorge para praticar o assassinato. O Jorge se prepara para receber a morte e sabe que vai se livrar das malditas dores, mas aparecerão outras dores que talvez sejam maiores do que as dores do câncer. Mas ele está preparado para tal fim. O Lúcio vai assassiná-lo com uma faca peixeira.

Do outro lado do quarto alguém ouve toda conversa e convoca quem por ali está por perto para defender o Jorge da maldita faca que já está afiada. O Lúcio leva a faca para cima e fica querendo enfiá-la peito magro do Jorge, e é nessa hora que todos correm para evitarem a morte antecipada do Jorge.

O Lúcio sai às carreiras de dentro do quarto e se enfia no quintal da casinhola, e lá, pula o muro e vai embora sem destino. Os familiares ligam e chamam a polícia. Mas já era tarde. Nessas alturas, o Lúcio já está muito distante da li.

Após livrar o flagrante o Lúcio se apresenta às autoridades e diz o porquê de ter feito isto contra o amigo. Queria apenas acabar com aquele sofrimento do velho e seu patrão companheiro. O resto vocês sabem como aconteceu. Na justiça recebeu o que era merecido.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O AMOR FAZ BEM, MAS TAMBÉM FAZ MAL.

Por José Mendes Pereira

Preservando os nomes verdadeiros dos personagens que figuram neste texto.

Não tenho o ano preciso, mas sei que o que segue aconteceu na década de 70, do século que se passou, aqui em Mossoró, lá pras bandas da zona Oeste da cidade.

João era casado com Rosa casal que aparentemente vivia divinamente bem, amor perfeito, mas toda vizinhança estava enganada. A Rosa desabrochava facilmente as suas pétalas com cheiro de amor para o Sebastião, que com ele, ali, naquele bairro, cresceu.

O Sebastião amigo de infância do João e da Rosa e metido a namorador não arredava os pés da casa do casal em nenhum momento. Todos os dias ele lá estava. O João nada desconfiava. Aquele homem foi criado desde pequenino ali no meio de toda vizinhança. O João achava que a permanência do Sebastião em sua casa era como se os considerassem irmãos, e com isso, não havia motivo para expulsá-lo de lá, já que ali, quando criança brincaram, pularam..., diante de tanta gente boa e descente.

A Rosa também era do bairro, apenas com uma pequena diferença, porque não havia nascido no meio daquela gente, mas desde 10 anos de idade que convivia ligada aos moradores dali, chegando a namorar o João. Depois que se tornaram completamente adultos os dois foram à igreja católica, na finalidade de serem unidos diante da presença de Deus. E lá, o padre os abençoou de corpo e ama, agora seriam dois corpos em um único espírito.

Devido à amizade do Sebastião com o casal infelizmente o João agora teria que passar por coisas que jamais havia imaginado em toda sua vida. A Rosa sua esposa e companheira de todos os dias mesmo sem o José perceber, vinha abrindo as suas pétalas amorosas para o Sebastião, dizendo-lhe que estava apaixonada, e não aceitava que ele negasse ser seu amante.

O Sebastião também já tentara por diversas vezes, assim como um pássaro que persegue a sua amada, abrindo um pouco da sua asa para Rosa, mas ela ainda não tinha entendido o seu desejo por ela. Apenas suspeitava que o Sebastião deixava a entender que gostava muito dela, mas não sabia se o seu gostar era relacionado a amores, ou simplesmente, um jeito de ser como se fosse irmã, Mas logo ouviu de sua própria boca que também estava apaixonado.

José trabalhava fora da cidade e enquanto ele estava ausente de sua residência os dois se abraçavam e se beijavam em cada encontro de rotina, e sobre a cama do José, o amor entre os dois era regado, fazendo com que florescesse mais a cada dia. O José nem sonhava que estava sendo traído por um dos seus amigos.

Depois de um ano a paixão dominava o casal adúltero. Rosa se entrega ao Sebastião de corpo e alma, não queria mais saber daquele sujeito grosso, desajeitado, pobre de espírito e de carinho. Agora nos braços do Sebastião queria viver um romance que nunca mais iria acabar.

E o que ela faria com o José seu esposo? Mandaria ir embora ou o quê? O Sebastião até nem opinou, mas aceitou a proposta da amante. Matar o José o quanto antes. Se isso não acontecesse ele ficaria infernizando a vida do cônjuge apaixonado e traidor.

José chegaria no dia seguinte do seu trabalho que ficava um pouco distante da cidade de Mossoró. O cônjuge traidor já tinha organizado o assassinato do José. O Sebastião ficaria escondido dentro da casa, e assim que o José entrasse em casa e se dirigisse até a cozinha, o Sebastião que estava escondido antes dela, o mataria com uma só machadada. E assim foi feito.

O José chega em casa. Rosa vai ao seu encontro e o abraça como se nada iria acontecer contra ele. E lentamente, o José caminha em direção à cozinha ao encontro do assassino. E ao passar um pouco da pequena sala em direção à cozinha, o José foi brutalmente assassinado com uma certeira machadada. O José dá um grande urro, assim como um touro quando recebe a primeira machadada na testa em um abatedor. E em seguida, caiu estrebuchando no meio de um lençol de  sangue escarlate.

Agora José estava morto. Como já havia sido cavada a cova dentro da cozinha para não levantar suspeita, levaram-no até o buraco, e lá, o jogaram e cuidaram de cobrir com  barro que tinha sido retirado dele. E como melhor proteção para não ser descoberto a sua morte colocaram um tonel sobre a cova do corpo.

Dois dias depois, parentes e a própria vizinhança sentiram falta do José no bairro. Ninguém sabia nada sobre ele. Por onde andava o José que isso nunca havia acontecido, de passar dias sem vir em casa e visitar os amigos? 

Rosa fingia chorar pelo desaparecimento do esposo. Os dias foram se passando e a cada dia perguntas e mais perguntas surgiam no meio da vizinhança sobre a não presença do José no meio daquela gente.

Mas como enterraram o José dentro de casa em cova rasa apareceu um cheiro insuportável ali, no meio das casas mais próximas. Chamada a polícia a Rosa e o Sebastião descobriram que o José tinha sido morto por eles e enterrado na sua própria cozinha da sua casa.

Os assassinos foram presos e julgados, mas eu não tive mais notícias sobre eles.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

COZINHAS E QUINTAIS

*Rangel Alves da Costa

Quanta memória boa rebusco agora. Vejo-me caminhando em direção à cozinha da casa e, um pouco mais adiante, à porta troncha que dá passagem ao quintal.
Já não avisto nem minha avó nem sua avó. Minha bisavó subiu aos céus encantada de tempo. Agora só restam as cozinhas e os quintais nas lembranças.
Na cozinha, de barro batido ou na taipa mal-acabada, o fogão de barro tomando um canto inteiro. No barro estendido, blocos ou tijolos sustentando a grelha.
Boca de fogão aberta, faminta, querendo muita lenha e muito mais carvão. A madeira queimando vai se contorcendo como de dor de partida, e para logo virar brasa e carvão.
Por cima da grelha ou apenas dos blocos, sentindo a labareda e a fúria ardente do fogo em chamas, a panela de barro, a chaleira antiga, o tacho para fazer doces.
Depois de tudo cozido, preparado, fervido, as cinzas juntadas para serem recolhidas. Mais ao lado, no outro canto, uma trempe com pote em cima.
Pote pequeno, mas de boca graúda, sempre com água suficiente para que a caneca não se afundasse tanto. Abaixo, no fundo do pote, uma rodilha sempre molhada.
E também um pano todo branquinho para tampar a boca. Quando o pote fica suado, ou a rodilha para reter a água ou a lama vai se formar mais abaixo.
Um pouco acima do pote, penduradas na parede em pequenas forquilhas, três ou quatro canecas d’água, todas de alumínio e sempre brilhosas de tanto serem arejadas.
Ao centro, uma pequena mesa de madeira velha tendo por riba um jarro com flores de plástico. Não há casinha de antigamente onde não houvesse um jarro com flores mortas.
Flores de cinzas, acinzentadas, quase sem cor, mas tão cheias de vida naquele viver humilde. Endurecidas de tempo, quebradiças dos anos, mas sempre ali.
Um alguidar em cima de uma banquinha, uma fruteira por riba do guarda-comida de pouco uso. Já envelhecido demais, mas sempre bonito na sua madeira de lei.
Mas o guardado lá dentro é de valor sem igual: um jogo de porcelana herança familiar. Tudo sempre assim, tudo sempre no seu lugar.
De vez em quando um cheiro de café torrado, um aroma gorduroso de tripa assada, um perfume especial de cuscuz de milho ralado.
Saindo desse velho e primoroso ambiente, logo adiante o quintal. Que saudade daqueles tempos dos quintais, daqueles cercados com árvores frutíferas e galinhas ciscando ao redor.
Onde estão os quintais, os belos quintais com seus cantos de plantas medicinais, do boldo, do manjericão, do mastruz, da raiz curativa pra qualquer doença?
Quintais de poleiros, de mamoeiros e cajueiros, de varais e de tanques de lavar roupa. Quintais de tronco largo para sentar, de tamborete para fumar o cigarrinho de palha, de purrão para juntar água de chuva.
Quintais de pontas de vacas e de meninos brincando de fazendeiro. Não. Não existem mais os quintais. Mas ainda assim eu vou além da porta da cozinha só para imaginar outros tempos.
Ali está uma mulher estendendo a roupa e cantarolando uma velha canção: “Tardes sertanejas que se vão, logo chamam as luas do sertão. E eu aqui tão triste, ai como dói meu coração...”. Será minha mãe? Será sua mãe? Não sei. Não sei. Só sei que dá saudade. Eu sei.

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O CACHIMBO DA MINHA AVÓ HERCULANA MARIA DA CONCEIÇÃO

Por José Mendes Pereira

Noutros tempos, geralmente, quando uma pessoa que era fumante e passava dos 50 anos nada melhor do que fumar num cachimbinho, porque muitas delas (homens ou mulheres) achavam que ficava mais legal o uso do cachimbo, vez que era muito mais prático colocar fumo nele e acendê-lo apenas com uma brasa, em vez de riscar fósforo e o vento apagá-lo. Claro que não era em todo lugar que tinha brasa, mas se estivesse em casa era muito mais prático acender o seu cachimbinho com ela do que ficar riscando fósforo e o vento apagando.

Como a minha avó Herculana Maria da Conceição era uma viciada no uso do seu cachimbinho, e eu ainda criança com menos de 12 anos, e ninguém tinha ideia o mal que faz o fumo, seja cigarro, cachimbo ou charuto, e morava bem pertinho dela, e quando eu me encontrava lá, sempre ela solicitava que eu abastecesse o seu cachimbinho com fumo, e posteriormente, o acendesse. E assim eu fazia. Findei me viciando no maldito vício. Cada vez que eu chegava lá, já perguntava a ela:

- Mamãenana, era assim que nós netos a chamávamos, quer que eu ponha fumo no seu cachimbinho?

E ela que geralmente estava sentada usando os bilros fazendo algumas rendas, alegremente me respondia:

- Prepare meu filho, ele com o fume e depois acenda...

E assim eu fazia. Colocava o fumo no cachimbinho e em seguida, eu ia até ao fogão feito de forquilha, mais tijolos comuns e acabamento com barro de várzea.

Minha mãe nunca fumou, mas o meu pai era fumante, e felizmente aos 40 anos de idade resolveu abandonar o vício. Mesmo ele sendo fumante, jamais admitiu que nós, filhos, pegássemos numa lata que ele guardava seu fumo e papel para a fabricação de cigarros.

Mas todos sabem que avó é avó, e faz tudo para agradar os seus netos, e muita vezes nem sabe o que poderá acontecer com aquele tipo de ajuda que fez para um neto. E assim fazia a minha avó.

Geralmente, quando eu começava a preparar o seu cachimbinho o meu medo era que o meu pai aparecesse por ali, e se ele me visse com fumo nas mãos e cachimbo, com certeza, ele iria me dá uma bronca das maiores.

Aconteceu que em uma tarde já passando das 4:00 horas eu fui até a casa da minha avó, e era coisa de rotina mesmo, mas o meu maior interesse era dá umas baforadas no cachimbinho. Ao chegar, ela estava cuidando de um milho para ser moído no moinho pelo meu tio Antonio Néo. Mas ele estava sentado lá fora sob o alpendre, e posteriormente, foi até a cozinha para passar o milho no moinho.

E eu já um pouco viciado perguntei se ela queria que eu preparasse o seu cachimbinho. Ela me ordenou o preparo do fumo e acendesse. Só que, quando eu tentava acendê-lo  com uma brasa que tirei do fogão e tentava que ela ficasse sobre ele, mas  a brasa não me obedecia. 

Então a minha avó me disse que eu pegasse uma das suas chinelas que estava sobre o chão, e com a ajuda dela, eu colocasse a brasa e pressionasse-a, que assim que eu fizesse isto, eu desse uma puxadinha de fumaça no cachimbo, que aos poucos, o fumo pegaria fogo. E assim fiz. 

Mas quando eu me preparava para este fim ouvi a voz do meu pai já quase dentro da cozinha. Minha avó e eu ficamos aperreados, porque com certeza, o meu pai iria me dá bronca. E minha avó me dizia:

- Jogue-o dentro do fogo, meu filho, se não teu pai irá ver você acendendo o cachimbo.

Eu, nervoso, em vez de colocar a brasa dentro do fogo soltei foi a chinela dentro das brasas, e  peguei o cachimbo e fiquei com ele na boca, tentando acendê-lo. O meu pai quando viu esta arrumação, isto é, o cachimbo na minha boca, disse-me:

- Sim! É por isso que você vez em quando vem aqui na casa de mamãe, é?

Eu em vez de ficar calado, mas o nervosismo me fez piorar a situação  e me obrigou dizer:

- Venho tomar um traguinho no cachimbinho de mamãenana.

Mas o meu pai não foi tão ignorante comigo e me disse:

- Dê-me que eu acendo o cachibinho de mamãe.

E assim ele fez. Pegou a brasa, levou ao cachimbo e entregou à Mamãenana, dizendo-lhe:

- Pega, mamãe, José não sabe acender cachimbo.







  

domingo, 14 de outubro de 2018

O PRIMEIRO ASSALTO LIDERADO POR LAMPIÃO.

Por Guilherme Machado Historiador

Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que Lampião e cangaceiros em numeroso bando, assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa.


Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.

Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres.

No dia 1 de julho este periódico alagoano informou através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.

Manuel de Souza Ferraz o conhecido Manuel Flor.

Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem dançaram xaxado e cantaram a mítica melodia “Mulher Rendeira” embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré e o fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz o conhecido Manuel Flor. Este se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.

Material do pesquisador Guilherme Machado

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terça-feira, 2 de outubro de 2018

UMA MORTE ENCOMENDADA

Por José Mendes Pereira

João era vaqueiro da fazenda “Eldorado” do “fazendeiro Luiz Jerônimo” em Mossoró e alguns anos passados fizera um crime quase que forçado, só que por último ele estava sujeito a morrer, porque os filhos do assassinado cresceram e não o não querem perdoá-lo pela morte do seu pai. Todos que presenciaram a tragédia sabiam que ele não o matou por maldade, e sim, confundido com um lobisomem. Sabiam também que o assassino nunca teve nenhum problema com o assassinado, mas por má sorte, agora estava na lista para morrer.

Um dia de muito sol, pela tarde, chegara na fazenda um homem montado num cavalo vermelho e lustroso, todo metido com roupas de couro e chicote em uma das mãos, dizendo que estava indo para Governador Dix-sept Rosado. Ali, pediu um pouco de estadia enquanto o cavalo e ele descanassem um instante. O vaqueiro foi generoso, ordenou que descesse do cavalo para fazer algum lanche, talvez, um amoço fora do horário.

O João nem imaginava que aquele homem seria o seu possível matador, e logo exigiu que a esposa preparasse um amoço às pressas, vez que ele ainda não tinha almoçado. Almoço servido à mesa da salinha o homem abancou-se, e no momento em que se alimentava disse que era vaqueiro de um bancário de Mossoró, mas não revelou o seu nome, e que andava à procura de um touro que havia desaparecido alguns dias passados.

Mas o forasteiro não estava tão preocupado com a volta ao seu trabalho, findou indo ao campo com o João para campear o rebanho de gado do fazendeiro. Durante a viagem relatou que tinha sido vaqueiro de outras fazendas dos arrabaldes, mas em nenhum momento ele citou nome de fazendeiro que havia trabalhado.

O João começara a entender e se perguntando: o que aquele homem estava a fazer ali, se não disse para quem trabalhava ou se era perto daquela fazenda que ele morava, algo estranho existia na mente daquele sujeito. Imaginou na morte que fizera e era possível uma tentativa de vingança.

Vem o  anoitecer e o homem não foi embora e com certeza, queria jantar ali também. O João ficou na dele, sem querer perguntar mais nada, mas ficou meio assustado com aquele infeliz. A noite chegou por completa e vem o jantar. Nada tinha o que mais fazer. Entregaria a sua vida aos cuidados de Deus. Após o jantar o João o convidou para se sentarem sob o alpendre que cobria toda frente da casa, e em companhia, também foram os dois filhos pequenos.

A palestra entre os dois rolou sob o alpendre da casa grande. Nada de outros assuntos, só pegada de bois bravos nos tabuleiros, vacinas de rebanho, rações, leite, queijo e outros mais referentes à fazenda e rezes. 

Afinal, ambos eram vaqueiros, se era que o desconhecido entendia mesmo de fazenda. Mas parecia por completo um homem que sabia lutar em fazendas.

A noite estava se indo e todos dali precisavam dormir. O João foi lá dentro e trouxe uma rede, lençol e cordas para que o forasteiro a armasse sob o alpendre. Com esta cisma o João não seria maluco de deixar um desconhecido dormir dentro da sua morada, principalmente com aquele dúvida. Quem era ele? Um cobrador de imposto? Um vaqueiro de verdade? Um andarilho, ou mesmo um pistoleiro de fama? 

Dentro da sua casa o João não deixaria aquele sujeito dormir.

Pela manhã, do dia seguinte, logo cedo, os dois foram mungir as vacas no curral, e assim que terminaram, conduziram o gado até ao pasto. Em seguida, foram até a cacimba do gado apanhar água em uma pipa sobre uma carroça. E ao chegarem, cuidaram do gado miúdo que ainda continuava no chiqueiro. 

Obrigações feitas, retornaram para casa, e lá, fizeram o primeiro café do dia com leite, pamonhas e mais outros alimentos. Lá para as nove horas desse dia o sujeito disse que iria preparar o cavalo. Precisava chegar cedo ao destino. Foi até ao estábulo, pegou-o e veio buchando-o pelo cabresto. Antes de arumá-lo deu-he um banho. E assim que o cavalo ficou com os pelos enxutos, pôs-lhe a sela.
O João estava mais feliz do tudo, finalmente o seu hóspede contra a vontade agora iria seguir viagem ao destino pensado. Ali, despediram-se. O forasteiro montou-se e antes que partisse, disse:
- Seu João, eu vim até aqui a sua casa para te matar, porque eu sou pistoleiro profissional. Mas eu fiquei a noite toda me lembrando que tão bem recebido que fui e fazer uma covardia com o senhor...
- Mas pelo amor de Deus, não faça isso comigo não. Eu tenho estes dois filhos para criá-lo...
- Everdade! Vejo isso, o que eu pensei, não posso desistir, pois este é meu trabalho.
E arrastando o revólver mirou em direção ao seu João, eao tentar atirar, o forasteiro caiu do cavalo morrendo no meio de tanto sangue escarlate. O João fora salvo pela esposa que a tempo que ouvia a conversa do homem mal. Com um só tiro só de escopeta derrubou o infeliz pistoleiro.
E sem esperar por mais ninguém o casa fugiu da fazenda com os filhos e nunca mais foram vistos pela região.



O CANGACEIRO GORGULHO.

    Por Fabio Costa Este Cangaceiro estava no grupo de Mané Moreno em Poço da Volta quando em meio ao forró foram emboscados pela volante de...