sábado, 27 de janeiro de 2018

CASA DE MENORES MÁRIO NEGÓCIO, UMA INSTITUIÇÃO EXTINTA - PARTE I

Por José Mendes Pereira - (Crônica 12)

Esta instituição foi criada pelo político Aluízio Alves quando ainda não era governador do Estado do Rio Grande do Norte. Durante décadas ela acolheu muitos filhos de pessoas pobres para estudarem. Raimundo e eu fomos adeptos dela, e eu agradeço de coração aos que me encaminharam para ela, como dona Chiquinha Duarte, que adquiriu uma vaga, e nela, vivi durante oito anos estudando, e posteriormente consegui emprego e até mesmo, cursar uma faculdade, que na época eram poucos que tinham este privilégio. E ainda consegui ser professor da educação estadual, durante 25 anos.

Meu amigo e irmão Raimundo Feliciano, somente nós podemos falar o que aconteceu de engraçado naquela escola. Tivemos todas as assistências necessárias, segundo os regulamentos que regiam àquela instituição.

Fomos assistidos desde a alimentação até mesmo roupas e calçados. Só não tínhamos direito a cigarros e bebidas, mas sempre nós dávamos o nosso jeito.

Não era necessário nenhum de nós dizer que estava precisando de calças, camisas, sapatos ou outras coisas parecidas, nossas diretoras sabiam e cuidavam da gente com especial carinho.

Você sabe muito bem que o interno mais peralta daquela escola, sem dúvida era você, que mexia com todos, até mesmo com os funcionários que cuidavam de nós. Lembro bem das bagunças que fazíamos, mas geralmente tudo era pago com preços altos.

Certa vez o Zé Fernandes que é filho de Pedro e Telina (nunca mais o vi) chegou das suas férias trazendo consigo uma enorme rapadura (onde ela foi fabricada eu não sei), Sebastião o natalense, você e eu desejamos comê-la. A solução seria nós roubá-la. Feito o roubo, fomos lá para trás da escola. Com bolachas fizemos um bom lance, coisa que nós não sabíamos que iríamos pagar caro.

No dia seguinte, assim que dona Severina Rocha, a vice-diretora chegou na escola, Zé Fernandes enredou-a do furto que haviam feito na sua mala.

Aquele maldito sino, para nós, sempre foi malvado. Sei que você ainda lembra que um toque era para nós, internos, dois toques eram para os funcionários, e com badaladas com exageros eram para todos nós que residíamos na instituição. Quando o sino batia a primeira pancada nós ficávamos esperando pela segunda, do contrário, todos os internos estavam fritos. Alguém tinha feito algo errado.

Nesse dia, assim que o sino tocou uma batida, esperamos a segunda, mas não houve a segunda batida. Ali, nós três estávamos fritos. O roubo da rapadura tinha chegado à diretoria.

Fomos todos para diretoria, todos ali amontoados. Os outros não tinham feito nada de errado. Somente nós três éramos os responsáveis pelo furto da rapadura de Zé Fernandes.

Um dizia que não tinha sido ele. outro também declarava que não sabia de tal rapadura. outro pedia que quem tivesse furtado a rapadura que se entregasse. Como os outros não eram responsáveis pelo furto, fomos obrigados a declararmos o nosso feito, que nós três éramos os malfeitores da rapadura de Zé Fernandes.

Ficamos uma semana sem sairmos para lugar nenhum (exceto aulas e banheiros), apenas sentados ao redor de uma mesa. Lembro bem que nós só almoçávamos depois que todos os internos fizessem as suas refeições.

A Beatriz, que sempre fazia o papel de mãe, implorava a dona Severina que nós deveríamos almoçar juntos com os outros, e que isso era uma humilhação, e não alimentarmos separados como se fôssemos marginais.

Após as refeições dos outros internos fazíamos as nossas refeições. E quando as empregadas traziam os nossos almoços, geralmente você dizia: "- Lá vem o comer dos três ladrões".

Foram tantas estripulias feitas por nós, principalmente por você, as quais contarei na próxima publicação.

Nota: O que nós fazíamos de errado naquele internato era apenas coisa de adolescente, e nenhum de nós se tornou ladrão, marginal ou outra coisa parecida.

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Quando estiver no trânsito, cuidado, não discuta! Se errar, peça desculpas. Se o outro errou, não deixa ele te pedir desculpas, desculpa-o antes, porque faz com que o erro seja compreendido por ambas as partes, e não perca o seu controle emocional, você poderá ser vítima. As pessoas quando estão em automóveis pensam que são as verdadeiras donas do mundo. Cuidado! Lembre-se de pedir desculpas se errar no trânsito, para não deixar que as pessoas coloquem o seu corpo em um caixão. Você pode não conduzir arma, mas o outro, quem sabe! Carregará consigo uma maldita matadora, e ele poderá não perdoar a sua ignorância.

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SEU GALDINO FICOU ESTRESSADO COM O SEU JUMENTO “FARRISTA”

Por José Mendes Pereira - Crônica 11)

Assim que seu Galdino terminou de cuidar dos afazeres do curral, tomou café, em seguida, fumou um cigarro rasga pulmão, selou o seu jumento “Farrista” e saiu com ancoretas para apanhar água na cacimba do gado. Mas, parece que “Farrista” andava meio adoentado. Lento, triste, preguiçoso, e os olhos estavam descendo lágrimas, como se ele estivesse sentindo muitas dores de cabeça, ou até mesmo no seu corpo inteiro. E desse jeito, fez com que seu Galdino se irritasse com ele, chegando até violentá-lo com fortes pancadas, sem escolher o lugar de bater.

Quando seu Galdino montava na sela ele ficava sem querer andar, ali, parado, mesmo levando exageradas surras do seu dono. Ainda bem que seu Galdino nunca matou nem si quer uma formiga, se não tinha o matado de ódio. Dizia ele que a natureza precisa de todos os viventes, e para que matar, em vez de proteger aquele vivente?

Muitas vezes, seu Galdino viu enquanto trabalhava em seus afazeres, várias formiguinhas passando com as suas cargas sobre o seu minúsculo ombro, e quando as via, parava tudo e ficava esperando que elas passassem para o outro lado. Se ele tinha o prazer de construir, dizia ele, assim são as formiguinhas, que querem fazer as suas casinhas para se protegerem da chuva, do sol e de seus predadores.

E assim, o “Farrista” sem querer andar, mais irritado ficava seu dono. Em um momento, o “Farrista” deitou-se ao chão, e por mais que seu Galdino batesse mais raiva ele o fazia. Não se levantou de jeito nenhum. Vendo que ele não se levantava, seu Galdino marchou para a ignorância. Fez uma coivara debaixo do seu rabo, e quando iniciava a fogueira, apareceu seu Leodoro que andava campeando. E vendo aquela arrumação, protestou, dizendo-lhe:

- Como é que o senhor faz uma coisa desta, compadre Galdino, tocando fogo no rabo do jumento?

Seu Galdino foi curto e breve dizendo:

- Se o senhor quiser ficar no lugar dele compadre Leodoro, para levar a minha carga, venha que o solto.

- Eu não, compadre Galdino. Eu sou gente, e não sou animal para levar cangalha nas costas.

E sem mais nada dizes, seu Leodoro Gusmão saiu do lugar em que estava às pressas, mas resmungando consigo mesmo. “- Que homem imbecil, ignorante este meu compadre!”

Assim que seu Galdino tocou fogo embaixo do rabo do jumento depressa ele se levantou. E aproveitou a vontade do “Farrista”, montou-se e saiu chicoteando-o vez por outra.

Mais adiante, “Farrista” repete o que fizera antes. Seu Galdino tentou levantá-lo, mas ele não estava nem aí. Quanto mais apanhava mais se entrevava, mesmo deitado. E depois de tanto apanhar, resolveu levantar. Seu Galdino pula na cangalha e segue viagem a caminho de casa.

Ao longe, avistou um cavaleiro que se aproximava. Era o vaqueiro da viúva dona Chiquinha Duarte, que vinha vistoriando as cercas da fazenda. Querendo saber para onde seu Galdino estava indo, perguntou-lhe:

- Está indo para onde, seu Galdino, com o jumento?

- Estou indo para o inferno! Respondeu-lhe com a maior ignorância.

- Nossa! O senhor está indo pra muito longe. Acho que tão cedo não irá chegar lar. Porque é longe daqui lar.

Seu Galdino não lhe respondeu mais nada. Esporeou e chicoteou fortemente o jumento e foi-se embora.

Bem próximo ao curral apareceu um senhor e duas mocinhas, os três estavam com bíblias nas mãos. O homem era o pastor João Tomah, mas não era do conhecimento do seu Galdino, e as mocinhas eram obreiras da igreja que faziam partes. Andavam à procura de ovelhas para a sua congregação.

Já fazia um bom tempo que o “Farrista” repetira novamente aquilo que tinha feito anteriormente em outros locais. Ao ver seu Galdino maltratando o jumento o pastor João Tomah chamou a sua atenção, que ele não devia fazer aquilo com o animal indefeso.

Seu Galdino quis logo saber o porquê de querer defender o jumento, dizendo:

- Por que o senhor quer defender o jumento, se ele não lhe pertence?

- É porque não devemos judiar com os animais, senhor. Eles são as nossas companhias. E se um dia o homem exterminar todos os animais da terra, não haverá mais vida no globo, porque o homem sozinho neste planeta suicidará, isto é, será um suicídio coletivo. Veja o senhor, continuava o pastor, um homem vai morar lá dentro da mata, passando fome, magro, sem nenhuma regalia, mas ao seu redor estarão: um cão, um papagaio, galinhas, gatos, bodes, ovelhas... O homem sozinho morrerá logo.

Seu Galdino mesmo irritado, com ódio, ouvia caladamente. Em seguida, perguntou-lhe:

- E se este jumento estivesse lhe fazendo raiva, assim como desde da cacimba que ele me irrita, o que o senhor faria?

A pergunta do seu Galdino ao pastor ficou sem resposta.

- Mas o senhor já tem idade para saber que não se deve judiar com os animais, principalmente este jumento, pois era nele que Jesus andava no mundo...

- E Jesus andou neste jumento, senhor? – Perguntou seu Galdino.

- Sim senhor!

- Só o podia ter andado neste jumento. Jesus com aquele jeito piedoso, calmo, tranquilo, e de filho de Deus e da Santíssima Trindade jamais lhe deu umas bordoadas. Ainda bem, senhor, que ele só andou neste. Porque se Jesus tivesse andado nos outros jumentos, tinha desgraçado todos eles, com manhas..., com preguiças, com malandragens..., meu Deus! Que coração bondoso é o de Jesus...!!!

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

TIRO DE GUERRA DE MOSSORÓ - PARTE I

Por José Mendes Pereira - (Crônica 10)
 Tiro de Guerra de Mossoró - jotamariatirodeguerra.blogspot.com
Meu amigo e irmão Raimundo Feliciano:
Se a Casa de Menores Mário Negócio foi para nós um divertimento de bagunças sem prejudicarmos ninguém igualmente foi o Tiro de Guerra que nos divertíamos a cada momento, muito embora lá não só foi flores, passamos por provas difíceis, como os chutes nas nossas canelas, que vez por outra nós recebíamos dos sargentos quando errávamos os passos nas sofridas marchas, e os treinos de guerra nas imediações do campo de futebol Manoel Leonardo Nogueira.


No ano de 1970, todas as madrugadas, de segunda a sexta, você e eu saíamos da Casa de Menores Mário Negócio em direção ao Tiro de Guerra, para cumprirmos aqueles ensaios de guerrilheiros, administrados pelos sargentos: Moura, Everaldo e Gumercindo.


O sargento Moura (1º. sargento), alto, magro, de olhos azuis, de cor galegada, e mantinha a ordem com severidade, mas na verdade, quando estava apaisana, era uma boa pessoa, que nos atendia como se nós fôssemos seus amigos. Era encarregado da 1º. turma de atiradores e residia na sede do TG.

O sargento Everaldo (2º. sargento), era baixo, de corpo largo, moreno, irritado e bastante moralista. Pouco falava com nós, atiradores. Mas em outros momentos, era gente fina. Qualquer erro praticado por um recruta, já estava escalado para fazer faxinas no TG, limpando janelas, varrer a quadra, limpar banheiros etc. E um dos que mais fez aquele trabalho, sem dúvida, foi você. Meia volta, volta e meia, você estava escaldo para fazer faxinas. Mas você não deve culpar ninguém, merecia, devido as suas brincadeiras. O sargento Everaldo era encarregado da 2º. Turma.

O sargento Gumercindo (3º. sargento), este estava no começo da vida, com 25 anos de idade, e de estatura média, meio atlético, moreno claro, de voz grossa e lenta, amigo de todos os recrutas, e que algumas vezes, ele escondeu falhas de atiradores. Residia no antigo Grande Hotel em Mossoró. O sargento Gumercindo era encarregado da 3ª. turma de atiradores, sendo nós dois, comandados por ele, e que muitas vezes se irritou com alguns recrutas, mas logo estava de bem com todos nós.

Certa feita, numa madrugada de 1970, já bem próximo ao final da conclusão das nossas prestações militares com o exército, saímos da Casa de Menores já atrasados, que deveríamos chegar ao TG antes das cinco horas da manhã. E de lá, nós sairíamos em caminhadas até o local em que treinávamos tiros ao alvo (Apara Bala), localizado no Abolição I. Quando nós chegamos ao TG todos os atiradores e dois sargentos já haviam seguido viagem, apenas o sargento Moura se encontrava lá. Assim que nos viu ficou xingando, chamando-nos de dois grandes irresponsáveis, por termos chegado atrasados ao TG.

Como ele iria no jeep, levando os fuzis, balas e outros equipamentos para os nossos treinos, eu pedi que nos levássemos, já que a pé nós não chegaríamos tão cedo. 

O sargento Moura foi curto e grosso, dizendo que não nos levava, porque os outros atiradores haviam caminhado cedo para o locar de treino, e nós, usando irresponsabilidades, àquelas horas, ainda estávamos no terreiro do Tiro de Guerra. E sem mais dizer nada, ligou o jeep e deu partida em direção ao ponto de treinamento.

Eu gritei, insistindo, pedindo-lhe que nos levássemos no jeep até ao local de treino. Como ele e os outros sargentos já viviam irritados com você, devido o seu péssimo comportamento, a resposta que ele me deu, que me levava, mas o 138, você, não iria no jeep de jeito nenhum.

Como nós morávamos na mesma casa e eu não querendo deixar você para trás, respondi-lhe que se ele não te levasse , eu não iria com ele. Ciente de que eu não iria, novamente deu partida no jeep. Mas ele se arrependeu. Andou muito pouco, rendendo-se, e em seguida gritou, nos chamando para irmos com ele.

O sargento Moura era professor de Educação Física no Colégio Diocesano, e iria passar lá, para comunicar aos dirigentes que àquela manhã não iria dar aulas aos alunos, porque estava indo para os treinos do Tiro de Guerra.

Nós caminhávamos pela rua dos fundos do colégio, e lá, ele desceu, nos dizendo que iria até a secretaria do colégio para fazer o comunicado da sua ausência naquele dia, recomendando-nos que logo voltaria da secretaria.

Assim que ele desceu e abriu o portão do colégio nos recomendou, que uma porção de vacas que ruminava por ali, nós não a deixássemos entrar no quintal do colégio. Mas quando ele desapareceu da nossa vista o gado fez carreira e entrou na garra e na marra, sem que nós pudéssemos evitar aquela invasão do rebanho.

Ao sair do colégio e ao ver o rebanho de gado dentro do cercado, que na época era cerca, o sargento esbravejou, e quase nos engole, exigindo que nós colocássemos todos os animais para fora das dependências do colégio. Sem outra solução, fomos obrigados a correr atrás dos animais, e sem muitos esforços, finalmente, conseguimos expulsá-los de lá. 

Mas o pior, foi o castigo que recebemos lá no treino. Você, Raimundo, teve que passar várias vezes em uma cerca de arame farpado, rastejando, e do outro lado, um cocô de vaca estava te esperando, deixando-lhe todo sujo e fedorento.

Os sargentos te marcavam, porque você não deixava ninguém quieto. Era um verdadeiro capeta. Foi uma grande sorte ter terminado o serviço militar em Mossoró, porque você foi condenado várias vezes para ser mandado para a tropa em Natal.

Eram 64 pontos de faltas que nós tínhamos direito, e agradeça de coração, que mesmo você dando trabalho aos patenteados, muitas vezes, consideraram a sua ausência, aliás, quase todas as suas faltas foram causadas pelo seu péssimo comportamento, mas sem prejudicar a ninguém, apenas irritava os sargentos.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

SEU GALDINO FAZ COVARDIA COM O SEU MELHOR AMIGO LEODORO GUSMÃO

Por José Mendes Pereira - (Crônica 09)

Seu Galdino - http://www.lem.seed.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=161&evento=37

Entre os sertanejos existe uma relação extraordinária. Nenhum deles, ali, nega o empréstimo, que geralmente, são objetos usados no dia a dia do camponês, cela, cangalha, chocalho, enxada, foice, machado, ou até mesmo animal para carregar algum material de um lugar para outro.

Seu Galdino não andava muito satisfeito com o seu compadre Leodoro Gusmão. Um ano já passado, havia lhe emprestado o seu famoso jumento de nome “Farrista” (ganhara este apelido “Farrista” porque quando ele queria namorar, cerca nenhuma o segurava), para que ele fizesse o transporte de milhos secos na espiga do seu roçado para a noite da debulha em sua residência, mas até o momento, ele não devolvera o seu animal.

Já eram quase 6:00 horas da noite. Sentado sobre o terreiro da casa grande seu Galdino reclamava a dona Dionísia sua esposa, sobre o animal que não mais recebera das mãos do seu Leodoro:

- Minha velha Dionísia, não sei qual é a intenção do compadre Leodoro com “Farrista”. Já se foram mais de ano, e ele nem fala o dia que me devolverá o meu animal. Já houve a debulha, já ensilou todo legume, já vendeu legumes, e nada do meu jumento aqui. Sempre estou precisando dele...

- Meu velho Galdino, interrompeu-o dona Dionísia, tenha calma! Eu sei que já faz mais de ano que você emprestou o jumento, mas saiba que ninguém é direito por completo. Se você falar sobre isto a alguém, o que irá acontecer, é que ele irá saber, porque o mundo é cheio fuxico, aliás, melhor dizendo, o mundo é mais perfeito do que tudo, o ser humano é que é um verdadeiro leva e trás. Eu acho que o melhor é deixar pra lá, um jumento não vale quase nada...

- Não vale nada, Dionísia? – atalhou seu Galdino com ignorância. O meu jumento vale tanto quando uma vaca boa de leite, porque com ele eu posso passar-lhe uma cangalha, ir ao campo, trazer águas em ancoretas, trazer lenhas em cambitos, carregar milho, ele mesmo me carregar, e você acha que uma vaca fará isto, com aquele andar dela todo desajeitado?

- Certo, meu velho, certo, mas o melhor é não entrar em desavença com vizinho, para não acontecer uma intriga. É aguardar o dia que ele irá devolver o seu animal.

- Mas você sabe, Dionísia, eu sempre estou precisando do animal, e ele faz de conta que nem se lembra disso, que o “Farrista” deveria já ter sido a mim entregue.

Para não criar um clima de discussão entre os dois porque seu Galdino era cabeça dura, dona Dionísia saiu de mansinho, dizendo-lhe que iria cuidar do jantar na cozinha, mas logo retornaria para ficar ali, ao seu lado.

Depois que a dona Dionísia saiu da sua companhia seu Galdino ficou resmungando sozinho, que seu Leodoro estava pensando que o jumento era dele! Dele uma ova, o jumento era seu! E que ele o devolvesse o quanto antes possível, porque do contrário, iria lhe fazer uma coisa, e com certeza, ele não  gostaria.

Antes das sete horas da manhã do dia seguinte seu Galdino resolveu ir à cacimba do gado, para ver se durante a noite ela tinha pegado água, porque, ultimamente, devido à falta de chuvas naquela região, ela só enchia mesmo depois de três ou quatro dias, isto sem a usá-la para nada. Se tirasse água antes destes dias, não teria o líquido suficiente tão cedo para resolver os problemas de água.

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Ao retornar da cacimba seu Galdino encontrou seu Leodoro montado no “Farrista”, e que vinha da roça, mas sem legumes sobre o lombo do animal.

Ao avistá-lo, imaginou que o dia da vingança tinha chegado, e seria aquele mesmo. E ainda disse consigo: “ – Quem tem com que me pague, não me deve nada!” E aproximando-se do seu Leodoro Gusmão, parou no meio do caminho, sem nenhuma chance do seu amigo passar.

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E ali, os compadres conversaram muito. Falaram da pouca produção de legumes, também o inverno tinha sido resumido, não houve jerimum, nem melancia, a batata doce não prestava, o pouco pasto que ainda existia não seria suficiente para sustentar o gado sem a compra de resíduo, e que o sofrimento para os sertanejos, inclusive para eles dois, aquele ano seria muito difícil, enfim, falaram tudo.

Daí a pouco, seu Galdino resolveu vingar a não devolução do animal por seu Leodoro Gusmão, dizendo-lhe:

- Compadre Leodoro – dizia ele com calma - deixa-me dizer uma coisa no ouvido do meu “Farrista”.


- Compadree Galdinooo - fazia seu Leodoro quase dividindo as palavras  em sílabas - esta é a primeira vez que eu ouço alguém dizer que quer dizer uma coisa no ouvido de um jumento. Mas, se o compadre acha que ele irá entender, aí ele fica à sua disposição para contar o que quiser.

http://www.nordestinospaulistanos.com.br/2013/11/o
-maior-amigo-do-sertao-o-jumento-e.html

- Ele entende, compadre Leodoro! Ele entende! O rei do baião, o nosso cantor Luiz Gonzaga do Nascimento, lá da cidade de Exu, das terras pernambucanas, ele disse que o jumento é nosso irmão. E se é nosso irmão, ele entende tudo o que a gente diz. Poderá não falar, mas entende.


E aproximando-se do “Farrista” seu Galdino encostou-se ao ouvido do jumento, e fez que estava contando algo a ele. Mas ele não disse si quer uma palavra. Como ele estava fumando, pegou a ponta do cigarro acesa e jogou dentro do ouvido do jumento. Sentindo a dor da queimada dentro do ouvido, causada pela ponta do cigarro, o jumento pôs-se a pular, e logo, levou seu Leodoro Gusmão ao chão, que teimosamente, tentava se equilibrar sobre a cela do jumento. Mas o que seu Galdino queria, era que o jumento derrubasse seu Leodoro e tomasse rumo para a sua casa. E assim foi feito. Quando seu Leodoro caiu de cima dele, “Farrista” fez carreira em busca da casa do seu dono Galdino.  

http://mapio.net/pic/p-50206103/

Ao se levantar do chão, irritadíssimo,  seu Leodoro perguntou ao seu Galdino:

- Homem, que diabo o senhor disse ao jumento me causando esta grande queda?

- O que eu disse a ele nem precisava ter lhe derrubado. – Disse seu Galdino satisfeito com o péssimo feito contra o seu amigo.

- Mas pelo amor de Deus, me diga o que foi que o senhor disse a ele?

- Eu só fiz dizer a ele que a mãe dele morreu, compadre Leodoro. Só isso e mais nada!

- Mas compadre, por que o senhor disse isso a ele?

Chateado, saiu seu Leodoro em busca de casa a pé, e com ódio, disse consigo mesmo: “- Eu nem sei o porquê de ainda considerar um homem deste! Quando não está mentindo, só faz coisas para prejudicar os outros!

Seu Galdino também foi para casa, mas por outro caminho. Quando ele chegou em sua casa, o jumento já estava na porteira do curral tentando entrar. E ao chegar perto dele, disse:


- Nunca mais vá ali na casa daquele velho imundo, ouviu Farrista! Ouviu, Farrista! E eu brinco!

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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SEU GALDINO E A ONÇA PINTADA DA GRUTA

Por José Mendes Pereira - (Crônica 08)

Nesse dia, seu Galdino acordara meio doente. À noite anterior havia tomado uma porção de vinho, comemorando os cinquenta anos do seu casamento.

Dona Dionísia sua velha e estimada esposa permanecia ao redor da cama, para lhe dar apoio se ele precisasse. Apenas, algumas vezes, havia saído do seu redor, quando seu Galdino solicitava algo que lhe melhorasse a ressaca. Dizia ele que o vinho só lhe trouxera uma infeliz ressaca; rins doídos, o corpo estava como se tivesse levado uma surra de chicote. As pernas pareciam que tinham perdido os movimentos. Um enjoo terrível, e uma vontade de provocar. E vez por outra, passava uma tontura, deixando-o sem condições de permanecer em pé.


Nesse dia, suas vacas foram mungidas pelo vaqueiro do Lili Duarte, que já havia tomado conhecimento, que seu Galdino se encontrava enfermo.

Como de rotina, recebera a visita do seu Leodoro, um grande homem da sua amizade, principalmente, para contar as suas aventuras. E ao vê-lo naquelas condições, seu Leodoro aconselhou-o que fosse até à cidade para consultar o médico, e aferir a sua pressão; e não era bom ficar ali enfurnado, já que tinha médicos gratuitos para este fim.

Ali, deitado, reclamava do maldito vinho que o deixara naquelas condições, e até dizia que nunca mais colocaria uma gota daquele embriagador.

- É, compadre, dizia seu Leodoro, nós na idade que estamos não devemos brincar com a saúde, porque é um passo para a morte. Passou dos sessenta, tudo fica difícil para uma recuperação.

- Eu sei, eu sei, que bom que eu estivesse ainda começando a vida, campeando gado nos tabuleiros...

- E ainda, compadre Galdino, vendo aquelas onças nos serrados..., aliás, hoje quase não se ver mais as bichinhas passeando pelos campos.

- Exatamente! Estão acabando com as bichinhas..., e hoje, ao clarear do dia, quando eu me acordava, lembrei-me de uma ninhada de filhotes de onça que eu vi quando ainda era jovem. Naquele tempo, eu apenas sonhava em ser dono de uma boa fazenda, e os pouquinhos bichinhos que eu já possuía, eu os criava nas terras do meu pai Galdino Borba(GATO Mend(ONÇA). Mas como Deus não desampara ninguém, hoje eu tenho esta, e excelente fazenda, e muito o agradeço.

- Eu não sei compadre Galdino, porque tem pessoas que desfazem de Deus, usando certas brincadeiras com ele. E tudo ele dá para nós.

- É um verdadeiro imbecil, aquele que diz coisas contra Deus...

- Verdade, compadre! – Atalhou seu Leodoro.

- Sim, compadre - continuava seu Galdino apoiando-se na cama, como se quisesse se levantar - voltando à conversa da ninhada de filhotes de onça pintada que eu a encontrei..., eu tinha saído cedo de casa, na intenção de vistoriar os meus pouquinhos bichinhos, porque o inverno tinha sido escasso..., e logo, teria que voltar, porque eu precisava ir até à cidade para apanhar um dinheiro de um fazendeiro que havia me solicitado a pegada de uma novilha amojada. Segui a pé, e já no final da Baixa Grande, local que o senhor conhece muito bem, eu peguei outra vereda. Esta, facilitava mais a minha caminhada. Lá mais adiante, deparei-me com uma gruta que eu nunca tinha visto. Fui olhando para um lado, vi uma boca grande, formada por pedras, e percebi que dava espaço para se entrar nela. Com um pouco de receio, findei entrando na gruta. O senhor quer saber o que tinha lá dentro dela?

- Quero sim senhor! – Exigiu seu Leodoro.

- Três filhotes de onça.

- Três filhotes de onça?! Novinhos, compadre Galdino!?

- Bem novinhos! Lentamente, eu fui me aproximando deles, mas todos ficaram ali me olhando e arrepiados. Quando eu peguei um deles para alisá-lo, o diabo da mãe vinha entrando na gruta, e de pressa, eu o soltei. Eu não tinha como me salvar daquela onça. Mas eu precisava criar um meio para me livrar dela. Ou eu tentava uma maneira de me defender dela, ou ela iria me devorar ali mesmo. A minha sorte, foi que ela veio e se deitou para dar de mamar aos filhotes, e nem percebeu que eu estava ali, num lugar apertado. Ela ficou deitada de costas para mim. E ali, as horas foram se passando, e eu só me lembrava de que ela poderia me ver e me atacar, porque eu não tinha nenhuma chance de sair dali. Ela tomava a passagem para fora. Sabe o que eu fiz, compadre Leodoro?

- Não sei não senhor! Estou aguardando que me diga o que o senhor fez para sair de lar.

- Sabendo que onças têm medo de fogo, silenciosamente, peguei os meus papelinhos de cigarros, e os coloquei sobre a calda da onça que estava bem pertinho de mim. Como ela nem se mexeu, toquei fogo nos papelinhos, que de repente, foram queimando uns aos outros, atingindo o rabo da danada. Sentindo a quentura do fogo no rabo, ela deu um esturro tão grande, e saiu de buraco a fora, numa velocidade pra mais de cem quilômetros por hora. Eu vendo que ela havia desaparecido dali, peguei as três oncinhas e caminhei às pressas com elas, em direção a minha casa. E adeus, mamãe onça! Nunca mais ela viu os seus filhotes.

- E o que o senhor fez com os gatinhos da onça, compadre Galdino?

- Havia chegado um circo em Mossoró, e assim que eu soube, selei o meu jumento, coloquei os caçoas, e em seguida, os gatinhos da onça dentro, e fui tentar vendê-los ao dono do circo. Mas eu passei por um sufoco dos piores. A danada da onça que eu nem esperava, quando cheguei já bem próximo de Mossoró, ela me alcançou, e tinha hora que ela partia pra cima de mim com gosto de gás. Para vencê-la, de cima do jumento mesmo, dei-lhe umas boas lapadas de chicote nos seus olhos, aí ela ficou sem tino, resolveu voltar.

- E o que era que ela queria, comadre Galdino?

- Era os seus filhotes.

- E como foi que a onça soube que o senhor estava levando os seus filhotes nos caçoas?

- Compadre, eu acho que foi através do seu faro, que ela descobriu que eu levava os seus filhotes nos caçoas. Só sei que os vendi, e bem vendidos. E o dinheiro das oncinhas, está aqui. Empreguei-o nesta propriedade.

- As horas estão se passando, compadre, e eu tenho que ir embora, tenho que cuidar dos meus afazeres..., mas cuida da sua saúde. Não vá ficar aí sem procurar um médico.

E ao sair, lá fora, seu Leodoro Gusmão caminhava dizendo consigo mesmo:

"- O danado do meu compadre não tem jeito não! É morrendo e mentindo, é morrendo e mentindo! Mas que bicho mentiroso!".

Minhas simples histórias

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São trabalhos feitos com especial carinho para você, leitor!

  • ALERTA AOS NOSSOS LEITORES!

    Perdoe qualquer agressão, para não se sentir culpado ao tirar a vida de alguém. E entenda que: Perdoar é devolver ao outro o direito de ser muito feliz.

    Quando estiver no trânsito, primeiro, lembre-se de lembrar que tem que se lembrar deste lembrete, para não passar por coisas desagradáveis no trânsito. 

     Cuidado, não discuta! Se errar, peça desculpas. Se o outro errou, desculpa-o, faz com que o erro seja compreendido por ambas as partes, e não perca o seu controle emocional. Você poderá ser vítima. 

    As pessoas quando estão em automóveis pensam que são as verdadeiras donas do mundo. Cuidado! 

    Lembre-se de pedir desculpas se errar no trânsito, para não deixar que as pessoas coloquem o seu corpo dentro de um caixão. 

    Você poderá não conduzir arma, mas o outro conduzirá uma maldita matadora, e ele poderá não perdoar a sua ignorância, e depois que o bicho é criado, o mais difícil é domá-lo.

    Imagina bem, o sujeito diante de uma arma sem ter como se livrar dela, hein? Possivelmente irá morrer. 

    Não se faça de valente, só porque está com a sua namorada ou esposa e não quer que ela sinta o seu fracasso. Ela não te quer como herói, te quer simplesmente como namorado ou esposo vivo. 

    É melhor vivo medroso do que  morto valente.

     https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/policial-civil-atira-na-perna-de-motociclista-apos-briga-de-transito-video 
    "O site acima diz que este rapaz condenado a morrer não morrei, mas foi baleado por este ignorante".

    Uma confusão criada entre dois ou mais indivíduos no trânsito, muito difícil de ser apaziguada. Cada um quer ter razão, e uma arma poderá surgir entre eles, e alguém apertará o gatilho, e outro irá morrer.

    Muito chato para você, sempre me ver lembrando isso. Mas é para o seu bem. 

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O CANGACEIRO GORGULHO.

    Por Fabio Costa Este Cangaceiro estava no grupo de Mané Moreno em Poço da Volta quando em meio ao forró foram emboscados pela volante de...