quinta-feira, 28 de junho de 2018

SEU GALDINO MONTA ARMADILHA PARA CAPTURAR ONÇA SUÇUARANA, O FELINO SE SALVA, MAS ELE FOI ENGOLIDO PELA SUA PRÓPRIA ASTÚCIA.

Por José Mendes Pereira

Por último, uma onça suçuarana vinha subtraindo a criação do seu Galdino Borba(gato) de Mend(onça). Quase todas as manhãs quando ele iniciava as suas atividades à procura dos seus animais encontrava ovelhas e bezerros feridos, e algumas vezes, encontrou carcaças de animais  que pelos  estragos, com certeza, foram devorados por felino de grande porte. E não tinha dúvida, aquela matança de animais em sua fazenda, estava sendo feita por uma onça suçuarana, que dias antes, avistara em suas terras, lá bem nos fundos da sua propriedade.

Como é do conhecimento de todos seu Galdino nunca matou uma onça, porque sempre guardou em sua mente, que todos os animais têm que permanecerem vivos, cada um deles tem uma função na natureza, mas devido o grande prejuízo que vinha tendo com a subtração de animais na sua fazenda, tinha que fazer algo urgente, para evitar maiores prejuízos.

Os agentes do IBAMA viviam passando por todas as propriedades, somente no intuito de flagrar algum fazendeiro capturando animais para o abate, ou até mesmo para matá-los sem fins lucrativos, só para ter o prazer de ver animais mortos.

Temendo que a sua providência contra aquela onça chegasse aos ouvidos dos fofoqueiros, e espalhassem que ele estava tentando capturá-la, seu Galdino resolveu chamar dois homens na cidade de Mossoró, ambos trabalhadores braçais, e os levou para cavarem uma valeta com mais de três metros de fundura, nos fundos da sua propriedade, porque, era muito difícil que alguém descobrisse que lá ele mandara fazer uma armadilha para capturar a maldita onça suçuarana.

Após três grandes dias de serviço finalmente a armadilha estava prontinha para receber a onça. Pequenas varas foram colocadas sobre a valeta, em seguida, papelões, tendo sido  completada com arisco que foi retirado da própria valeta, e dessa forma a onça jamais notaria que ali existia um buraco, e caso fosse presa, não havia possibilidade dela escapar por cima do buraco e nem de outra forma.

Depois disso, fizeram mais ou menos dez metros de cercas de um lado e do outro, até o final da valeta, formando um corredor meio afunilado, e mais adiante, uma espécie de oca pequena coberta com ramos, e nela, seu Galdino ficaria escondido, e assim que a onça entrasse no corredor e passasse por ele, neste momento, ele sairia da oca e obrigava a onça correr em direção à valeta, que com medo, correria, e ao passar sobre a armadilha, o seu peso faria a cobertura arriar juntamente com ela, ficando presa sem condições de sair.

Tudo prontinho. Seu Galdino dispensou os homens. Pagou e os encaminhou até Mossoró, e sem demora, retornou para casa, na intenção de preparar o material para levar até a armadilha.

Já bem próxima da noite chegar seu Galdino despediu-se da esposa dona Dionísia, afirmando que iria ver se pegava a onça que estava subtraindo os seus animais, mas não revelou o lugar, porque ele temia que ela conversasse com alguém sobre este seu movimento, e esse alguém poderia boatar por aí, fazendo com que o IBAMA tomasse conhecimento dos seus planos, já que o órgão não permite a captura de animais, e nem tão pouco a matança. Levou consigo três quilos de carne de boi, e acreditava ele que, com o cheiro da carne, certamente a onça iria farejá e acharia a direção certa da armadilha. 

Ao chegar à armadilha seu Galdino cuidou de arrumar tudo direitinho. Pegou a carne colocando-a bem próxima à armadilha. Prontinho, dirigiu-se até sua oca, porque tinha certeza que ela não tardaria chegar.

Já eram mais ou menos 12 horas da noite e a lua cheia passeava sob o universo. Seu Galdino ouviu um chiado nas folhas soltas pelo chão, e um batido em árvores que por ali estavam arreadas ao chão. Observando bem, viu que era a onça suçuarana que já sentira o cheiro da carne. E lá se vem ela. Com cautela. Cheirando tudo que via. Sem pressa. Com o clarear da lua seus olhos brilhavam bastante. E foi chegando à oca onde estava escondido seu Galdino. Cheirou bem os galhos de ramos. E depois ficou observando o que lá dentro tinha. Seu Galdino permanecia dentro da oca, calado, mas demonstrava muita insegurança. 

Depois de boa observada a onça reconheceu que lá dentro tinha um animal racional, que era seu Galdino. E sem muito pensar, ela resolveu atacá-lo, derrubando a oca com fortes tapas. Foi nessa hora que seu Galdino não esperou mais por nada, e desesperadamente, fez carreira em direção à armadilha, e apoderado de medo, nem imaginou que lá na frente tinha a sua própria invenção. E assim que pisou sobre ela, desceu de cima abaixo na armadilha e caiu lá dentro desajeitado, ficando todo arrebentado, com sangue exposto ao corpo.

A onça que naquele momento já pensava em um bom prato, isto é, um belo jantar das carnes do seu Galdino, na carreira atrás dele, quando percebeu que ele caíra na armadilha, ela fez o seu malabarismo, e de um pulo só sobre, passou para o outro lado da armadilha, e com o impulso que fez para alcançar o seu Galdino, adiantou muito, freando um pouco distante do local. E ao parar, retornou para ver se conseguiria capturar o astucioso.

Vendo a onça tentando descer para ver se o abocanhava  de lá de dentro do buraco, seu Galdino ficou jogando ramos, papelões e arisco que caíram dentro juntamente com ele, para ver se ela desistia de capturá-lo.

A onça passou a noite toda ali, arquitetando como poderia matar o seu Galdino. Seu Galdino passou o resto da noite ali, de olhos arregalados, só imaginando a possibilidade daquela danada enfrentar o buraco para descer e o devorar. 

Mas bem cedo, ao clarear do dia, seu Galdino foi salvo por seu Leodoro Gusmão, que com uma espingarda, tentava em uma tocaia matar algumas “asas brancas” que bebiam em um pequeno córrego. E ao ver aquela onça deitada ali, deu um tiro sem mirar, só para espantá-la dali, e proteger a si mesmo. Ao ouvir o tiro, seu Galdino fortemente pôs-se a gritar lá dentro da armadilha. 

- Acudam-me! Acudam-me!

Seu Leodoro Gusmão quis reconhecer aquela voz. Parou e ficou escutando e se perguntando:

- De quem é aquela voz que tanto grita, meu Deus?

E com receio, vagarosamente, foi chegando para bem perto da armadilha, que até aquele momento ele nem imaginava de tal coisa.

E a voz continuou:

- Acudam-me, pelo amor de Deus, gente!

Foi quando seu Leodoro reconheceu dizendo:

- Aquela voz me parece ser a de compadre Galdino!

E foi chegando mais perto da armadilha. e ao chegar, olhou lá para o fundo da valeta e viu que era mesmo o seu Leodoro. E logo perguntou-lhe:

- Mais compadre Galdino, o que o senhor veio fazer aqui?

- Eu vim ser se capturava uma onça suçuarana que anda comendo os meus bicho...

- E por que o senhor compadre Galdino, está fazendo o que dentro desta valeta? - Atalhou seu Leodoro.

- Eu mandei cavar ela para capturar a onça, e só sei que quem ficou preso fui eu...





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