quinta-feira, 9 de agosto de 2018

UMA TRAGÉDIA COM AVÓ E NETO

Por José Mendes Pereira
https://www.jornaldepomerode.com.br/apos-tentar-fazer-uma-lamparina-caseira-homem-causa-incendio-em-residencia-em-sc/

Já se passaram muitos anos que isso aconteceu em uma comunidade de Mossoró, bem próxima ao Mulungu, mais ou menos na década dos anos 80. Conheci o casal apenas vestido com roupas de camponês em algumas de suas viagens à Mossoró, e nunca dei um dedal de conversa com nenhum dos cônjuges.

O casal vivia da agricultura e de uma pequena criação de ovino, bovino e caprino aos arredores de Mossoró, ao lado do nascente da cidade, com uma distância mais ou menos de 18 quilômetros.

O casal já era de idade avançada, mas equilibrado na sua atividade rotineira. Nada lhe era difícil movimentar em sua pequena propriedade, muito embora, assim como qualquer outra pessoa que passa dos 60, 70 anos, a saúde do casal era comprometida

O velho se chamava José e por mais que eu tentei me lembrar do nome da sua senhora não veio na minha mente, e no decorrer de nossa história, chamá-la-ei de dona Maria.

O dia em que isto aconteceu não foi diferente dos outros dias passados, mas, algo, ao anoitecer, caminhava para mudar os destinos do casal idoso. 

https://pt.pngtree.com/free-backgrounds-photos/paisagem-por-do-sol-pictures

O sol já caminhava para se deitar no meio de um enorme lençol de nuvens amarelado, e a tarde estava preste a ir embora, porque logo mais, alegremente, chegaria a noite para rendê-la, assim como dizem os vigilantes de empresas noturnas.

Nos pequenos chiqueiro e curral seu José cuidava da sua criação, separando cabritos e bezerros das mães e os colocando fora, porque no dia seguinte, um homem vinha apanhar o líquido extraído dos úberes das vacas para ser vendido na freguesia. Lá dentro da casinhola dona Maria esposa do fazendeiro José cuidadosamente, preparava o jantar para os que ali estavam. 

Assim que seu José terminou as suas atividades de sempre caminhou para casa, entrou, e lá, apoderou-se de uma bacia de alumínio, pôs água, pegou uma toalha que estava sob a varanda que fechava a parte de baixo da casa, e foi lavar os seus encardidos pés no terreiro da casinhola.

Os filhotes miúdos de cabras e vacas corriam de ponta a ponta no interior do imenso terreiro que ficava em frente à casa grande da Fazenda, toda rodeada de alpendres. 

O cachorro de cor preta com lavras brancas espalhadas por todo seu corpo, e nomeado por “Lamari” muito mimado por todos dali, e totalmente de raça "vira-lata", fazia a segurança do fazendeiro José e da sua generosa  e unida família.

Dona Maria permanecia na cozinha preparando o jantar, e após de tudo pronto, ela percebeu que a lamparina que estava na sala não clareava bem o ambiente. Pegou-a e balançou-a, na intenção de calcular o tanto de óleo diesel que ainda tinha dentro dela, e ao balançá-la, notou que ela estava precisando ser abastecida com o líquido inflamável que era o óleo diesel. Mas resolveu deixar o abastecimento do líquido na lamparina assim que terminasse o jantar.

Assim que terminou de lavar os pés ao ar livre do terreiro, o fazendeiro José dirigiu-se até a sala de jantar, e lá, sentou-se ao lado esquerdo da esposa Maria, que já o aguardava sentada em uma cadeira ao redor da mesa. Filhos e alguns netos fizeram o mesmo, aconchegaram-se aos arredores da mesa para o jantar.

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Antes de iniciarem, como do costume dos sertanejos, seu José, dona Maria, filhos e netos presentes, todos puseram as suas mãos postas para os céus, e iniciaram uma reza, que no mínimo, demorou 3 minutos. Dona Maria foi quem iniciou a reza. Primeiro, um pai nosso, e em seguida, as Ave-Marias.

Terminada a bênção do “Pai Poderoso” no meio de conversas e risos, o jantar satisfez o prazer de todos ali. Seu José foi o primeiro a abandonar a mesa, apoderando-se de uma cadeira e foi para o terreiro receber um ventinho que vinha do Norte e em seguida, dirigia-se para o Sul. Os outros foram saindo paulatinamente.

Como é hábito de "dona de casa" a esposa do fazendeiro dona Maria ficou ao redor da mesa recolhendo os pratos, colheres e restos de comida para levar até ao local onde estava o cachorro “Lamari”, que aquelas alturas, impacientemente, já estava aguardando o seu jantar. 

https://www.petlove.com.br/sem-raca-definida-vira-lata/r

Depois de limpar a mesa e guardar os objetos que foram usados no jantar dona Maria abandonou a cozinha, e foi em busca do terreiro, e em uma das mãos, uma xícara de café para seu José. E ao passar pela sala lembrou que a lamparina precisava ser abastecida, vez que ela tinha diminuído bastante o claro. E logo, convidou um dos netos para ir até ao armazém ao lado da casa, onde lá, o óleo diesel era guardado em um balde (espécie de tonel) que cabia aproximadamente 20 litros do líquido inflamável.

Os dois chegaram ao local. Abriram a porta e entraram para a retirada do líquido, sempre clareados por uma lamparina que estava em uma das mãos da dona Maria. 

E de repente, tentaram passar uma parte do óleo diesel  para uma outra vasilha. Dona Maria esquecera que ela e o neto estavam transferindo um líquido inflamável. E foi nesse momento que os dois se atrapalharam. 

O fogo da lamparina lambeu o óleo e ambiciosamente, tomou de conta incendiando tudo, causando uma espécie de explosão. Com a explosão, o óleo foi de encontro às roupas e os corpos dos dois, fazendo com que cada um, era uma chama só. Os gritos eram tristes: "Meu Deus! Meu D..." Sem nenhuma solução os dois se abraçaram no meio do fogo ficando os seus corpos colados.

Ao verem o clarão  e ouvirem a explosão e os gritos dos infelizes seu José, filhos e netos correram para um possível socorro, mas já era tarde demais. O fogo tinha se alastrado, transformando os dois viventes em uma só tocha humana. 

Por último, o que o seu José, netos e filhos tinham de fazer  era somente carregarem água em baldes para apagar a língua de fogo que já tentava alcançar o teto. Ali, a tristeza permanecia em todos os corações que ficaram vivos.

Chamada a perícia para os possíveis trabalhos técnicos descobriram que foi a lamparina que estava bem próxima do óleo. E ao transferirem o líquido de um balde para o outro, o fogo faminto, com a sua língua traiçoeira, lambeu de uma só vez o líquido inflamável.

Amigo leitor! Não é fictício...

http://blogodmendesemendes.blogspot.com

A POBREZA NÃO NOS DECEPCIONA, AO CONTRÁRIO, SOMOS MAIS FELIZES DO QUE MUITOS RICOS


Por José Mendes Pereira

Geralmente quem é pobre morre pobre. Difícil é o pobre ser rico, muito embora alguns enriquecem da noite pro dia. Mas assim é que é a vida. O mais importante é ser feliz. 

Têm muitos ricos que já adquiriram tudo na vida e não são felizes. A felicidade maior é quando o sujeito arranja algo com dificuldade. Os ricos que nasceram na riqueza a maior parte é infeliz. Ter o tudo na vida tira a alegria da vida. Melhor é correr atrás, sentir dificuldades para possuir.

Noutros tempos as coisas eram muito difíceis, e assim como os outros pobres eu não sou nada diferente de ninguém, porque a riqueza me odeia de corpo e alma. E se ela me odeia, não faço questão que ela passe na minha casa, porque quando eu ganhar o meu paletó de madeira, não levarei nada.

Nos anos 80 as coisas eram tão difíceis que eu só tinha uma roupa, na base do: “Em quanto Chico Tira Mané Veste”. Mesmo com pouco dinheiro desvalorizado que eu ganhava da Secretaria da Educação projetei fazer um minúsculo serviço em minha casa. Serviço esse que assim que eu começasse, logo anunciaria o fim, simplesmente porque o dinheiro que eu tinha só daria para dois dias de serviços.

Seu Manoel Adelino era um pedreiro que também sofria assim como eu e tantos outros. Não dispunha de dinheiro suficiente para sustentar a sua filharada. E necessitando de ganhar qualquer dinheirinho para comprar alimentos para os seus guris, perguntou-me se eu tinha um servicinho em minha casa, para ele ganhar um trocadinho e fazer umas comprinhas.

Eu não podia negar, porque eu já estava com o projeto feito. E que enorme projeto, hein?! Seria fazer um reboco em duas paredes que ficava na cozinha do meu casebre. E sentindo que ele estava mesmo precisando de ganhar, chamei-o para começar no dia seguinte, mas logo o alertei que, tinha que terminar no segundo dia, porque o dinheiro que eu tinha, com exceção do valor para os materiais, só daria para pagar dois dias de serviços. Os materiais como: arisco e cimento já estavam encostados, que mais pareciam os materiais da construção de Delfim Neto (Foi você que deu fim, deu fim, deu fim), no dia seguinte seu Manoel começou minha grande obra. Até ao meio dia tudo corria bem. Massa feita, massa empregada nas paredes. Mas quando chegou à tarde, o pedreiro teria que ter andaimes para iniciar as partes de cima das paredes.

Sem dinheiro para comprar tábuas e outros mais para fazer andaimes fui obrigado a dizer a seu Manoel que o serviço iria parar quase antes de começar, porque, se eu comprasse tábuas para este fim, no dia seguinte, eu não teria dinheiro para pagá-lo.

Mas seu Manoel astucioso, porque precisava ganhar alguns trocados para alimentar a sua família disse-me que não se preocupasse, ele daria seu jeito sem que precisasse mais comprar as tábuas que ele tinha me pedido.

E ele resolveu mesmo. Pegou a mesa da cozinha, levou-a ao pé da avantajada obra, colocou uma cadeira sobre ela, e lá, ficou fazendo o reboco, enchendo uma parede por completa. Eu vi aquela arrumação e logo o chamei a atenção, explicando que aquela arrumação não daria certo. Insisti que ele descesse para não acontecer acidente. Não concordando com a sua teimosia  saí de perto e fui ver qualquer programa na televisão.

Mas enquanto eu assistia algo na televisão que no momento não mais me lembro o que eu estava vendo, algo me causou um susto, porque alguém tinha caído, e era justamente o seu Manoel que despencara lá de cima da mesa, e em seguida, um grito assustador.

Corro até à cozinha, e lá me deparo com o seu Manoel caído por cima de um dos braços, pois tinha o quebrado. O velho gritava e reclamava das dores. E o que fazer neste momento? Corri até a um posto de táxi, que fica um pouco distante da minha casa, levando-o até ao Hospital Regional Tarcísio Maia, porque lá é tudo grátis.

Agora completou a minha péssima situação. Dinheiro pouco para pagar dois dias de serviços a ele. 



LINDA FOTO


sábado, 21 de julho de 2018

Filhos do cangaceiro Luiz Padre: Da esquerda para a direita: Vilar, Wilson e Hagahus

Amigo leitor e pesquisador que tiver interesse de manter contato com Moema Covello neta do cangaceiro Luiz Padre, aqui está o seu e-mail: moema.covello@bol.com.br

Ela me falou em outro e-mail que é um prazer conversar com quem tem interesse de saber algo sobre o seu avô Luis Padre e Sinhô Pereira. 

Este foi um e-mail enviado para mim por Moema Covello Araújo, neta do famoso cangaceiro Luiz Padre, primo legítimo do mais famoso ainda o cangaceiro Sinhô Pereira. Este foi o primeiro e único patrão de Lampião como fora-da-lei.

Segue abaixo:

Amigo José Mendes Pereira, no dia 17/de janeiro de 2017, faleceu em Palmas/TO, meu tio Vilar Araújo e Póvoa, irmão do meu pai Hagahus e terceiro filho do casal Luis Padre e Amélia Póvoa.

O sepultamento ocorreu na cidade em que morava: Dianopolis/TO, dia 18/01/2017.

Abraço
Moema Araújo


segunda-feira, 9 de julho de 2018

SEU GALDINO CONTA A SEU LEODORO QUE FOI CONVIDADO PELO REI DO BAIÃO PARA SER SEU PANDEIRISTA

Por José Mendes Pereira


Assim que seu Leodoro Gusmão terminou as suas obrigações do iniciar do dia foi até à casa do seu Galdino, ver se ele tinha um pouco de creolina para curar uma bicheira em uma das suas vacas. Bem perto da casa do compadre viu que fazia algo, e aproximando-se, percebeu que ele estava consertando os loros da sela do seu cavalo.

Como seu Galdino estava de costas e entretido no ofício de reparar os loros, mesmo não brincando com ele, seu Leodoro Gusmão resolveu fazer-lhe um pequeno medo. E ao chegar mais próximo dele, disse com voz firme:

- Cuidado a onça, compadre Galdino!

Seu Galdino deu um enorme pulo para frente. E ao ver o seu Leodoro reclamou da desastrosa atitude contra a sua pessoa, dizendo-lhe:

- Mas por que me fez isto, compadre?

- Fiz apenas uma brincadeirinha com o senhor, compadre Galdino. Não a fiz por maldade...

- É, mas se eu caio desaprumado? Poderia ter quebrado uma perna, um braço...

Mas sem muita demora esqueceram-se do ocorrido e seu Galdino puxou um assunto que ainda não tinha conversado com o seu Leodoro Gusmão. E iniciou explicando-lhe de forma clara:

- Às vezes, compadre Leodoro, a gente perde as oportunidades porque quer. Ontem à noite eu fiquei imaginando que na minha juventude eu sempre gostei de açoitar “pandeiro” porque eu possuía um. E se eu tivesse aceitado uma proposta que me fizeram eu hoje seria famoso no Brasil, e quem sabe, no mundo inteiro.

- Eu não sabia que o senhor tinha sido músico, compadre! - Atalhou seu Leodoro.

- Eu não fui músico compadre, mas eu divertia as pessoas com o meu “pandeiro”..., pois sim, aos domingos, juntamente com os meus amigos nós fazíamos festas no meio de pingas, paneladas, churrascos..., e certo dia, ouvi dizer que o rei do baião Luiz Gonzaga iria fazer um show na Praça Vigário Antonio Joaquim em Mossoró, mesmo em frente à Catedral de Santa Luzia. Preparei-me e à noite eu estava lá, aguardando o início do show.

- O show foi pago, compadre Galdino?

- Compadre Leodoro, se o show era na praça como poderia ser pago?

- Verdade compadre, eu me enganei, talvez não prestei bem a atenção no que o senhor disse...

- Deixa pra lá..., vamos continuar..., e no local em que eu permanecia aguardando o show os instrumentos musicais do rei estavam bem coladinhos a mim. E eu observava o “pandeiro”. Foi aí que vi o seu Luiz Gonzaga chegando, e parece que ele já tinha observado os meus olhos em direção ao instrumento. E logo ele me fez uma pergunta:

- Oxente, porque tanto namoro com este “pandeiro”!? Pois desde lá de dentro que vejo você de olho nele? Por obséquio não faz besteira não...

- Eu gosto muito de açoitar “pandeiro”, seu Luiz Gonzaga!

- E tu sabes tocar “pandeiro” mesmo, menino?

- Eu não sou dos melhores seu Luiz Gonzaga, mas também não sou dos piores.

Seu Leodoro Gusmão chega dormia com a conversa do seu Galdino. Mas permanecia caladão. Nada a contrariar o compadre.

- Seu Luiz Gonzaga querendo ver se eu sabia mesmo bater “pandeiro” pegou-o e me entregou, dizendo:

- Provas que tu sabes mesmo tocar "pandeiro...!"

- Primeiro toquei, depois eu iniciei fazendo o "pandeiro" rodopiar sobre o meu dedo indicador. Passava-o entre as minhas pernas. Eu o jogava para cima e o aparava na ponta do dedo. O rei do baião Luiz Gonzaga ali, só olhando o meu malabarismo com o “pandeiro”. Vendo o que eu fazia com o instrumento, me disse:

- Oxente! Tu és bom mesmo no “pandeiro”, menino! O meu pandeirista chegou aqui em Mossoró meio adoentado, com uma disenteria horrível, e tenho certeza que ele não irá aguentar tocar. Tu quer tocar no lugar dele hoje a noite, no momento do show?

- E o senhor acha que um convite deste eu vou rejeitar, seu Luiz Gonzaga!

- O senhor ficou morto de feliz, em compadre Galdino? - Enfatizou-o seu Leodoro.

- Fiquei mais do que feliz! Um convite deste compadre, não é qualquer um que é merecedor. Passei a noite toda tocando pandeiro no show de seu Luiz Gonzaga. Mas não ficou por aí. Quando terminou o show ele me fez a proposta de acompanhá-lo por este Brasil afora. Mas eu o disse que não podia, poque os meus pais já eram velhos, e eu precisava estar sempre presente. Seu Luiz Gonzaga até elogiou por eu não abandonar os velhos meus pais, com as seguintes palavras: -"Filho que sabe bem o que significam pais, jamais os abandonará". 

- Sabe o que é que quer dizer isto, compadre Galdino? Eu mesmo respondo. É talento e mais nada. - Dizia seu Leodoro Gusmão dando-lhe um pouco de corda.

- Para mim foi uma honra tocar "Pandeiro" para  o rei do baião. E eu brinco?! 





sexta-feira, 29 de junho de 2018

MARLENE MENDONÇA IRMÃ DO SEU GALDINO PÕE O PAI NO CATECISMO

Por José Mendes Pereira
A doença de mal de "Alzheimer" é a forma mais comum de demência. Não existe cura para a doença, a qual se agrava progressivamente até levar à morte. Foi descrita pela primeira vez em 1906 pelo psiquiatra e neuropatologista alemão "Alois Alzheimer", de quem recebeu o nome, ao ao fazer uma autópsia, descobriu no cérebro do morto, lesões que ninguém nunca tinha visto antes.
Por último, um grande problema vinha acontecendo com Galdino Borba Gato Mendonça de mais de 90 anos, (pai biológico do caçador de onças seu Galdino, o velho amigo do seu Leodoro Gusmão), que infelizmente, o ancião fora premiado com a doença mal de "Alzheimer", conhecida por todos nós como sendo caduquice. Mesmo que o mal de "Alzheimer" já tinha sido descoberto pelo "Alemão Alois Alzheimer" mas continuavam ainda chamando de caduquice quem tinha este tipo de doença. O certo é que, as palavras existem, mas centenas delas estão adormecidas nos dicionários, e um dia elas serão usadas novamente como qualquer outra.
Sendo portador desta incurável doença o ancião Galdino dizia coisa com coisa, algumas vezes, conhecia os filhos, em outros momento, não. Ali, sentado sobre um banco velho de aroeira fincado sob o seu desmoronado alpendre ele conversava sozinho, chamava pela velha esposa que já fazia mais de 10 anos que falecera. Aboiava sem ver nenhum animal por perto, gritava, queria café, queria almoço fora do horário costumeiro, pedia água e quando a recebia das mãos da fiha, ele a derramava, pedia marca de fumo, e a filha Marlene enganava-o dando um "bom bom", e ao colocar na boca, a filha lhe perguntava:
- Esta masca de fumo é boa, papai?
E ele lhe respondia como se fosse fumo de verdade:
- Ótima, minha filha! Ótima! Nunca vi um fumo tão bom quanto este que você me deu agora!
O velho Galdino agora desejava entrar num catecismo, que uma religiosa ensinava às crianças do pequeno lugar. E ali, ficava em gritos, dizendo que a filha Marlene o matriculasse no catecismo. Ela com paciência dizia que, a fase de catecismo é apenas para crianças, e não para pessoas adultas, assim como ele que já passava dos 90 anos. Mas o velho não desistia da sua ideia de participar do catecismo do lugar.
Sem outra solução, Marlene resolveu participar à religiosa do desejo do velho seupai, que por último queria porque queria participar do catecismo que ela administrava.
A religiosa fez-lhe a seguinte proposta: Comprasse um caderno, um lápis, uma pasta, e quando estivesse com tudo em mãos, nos dias de catecismo, levasse-o para participar dos estudos religiosos. E assim foi feito.
Nesse dia, a Marlene arrumou o velho pai e foi deixá-lo na aula religiosa. Ele estava além de feliz, mas vez por outra perguntava à filha para onde eles estavam indo. E ela o respondia que caminhava para o catecismo. E assim, ele recordava o seu desejo.
Mesmo ele esquecendo de algumas coisas e como era perto de casa, não foi mais preciso a Marlene ir deixá-lo até a porta da escola religiosa.
E certo dia, ao retornar, encontrou uma bolsa cheia de dinheiro. Querendo saber o que tinha dentro, viu logo que se tratava de dinheiro. Ao chegar em casa entregou-a a Marlene, que ao ver aquele monte de dinheiro dentro da bolsa, cuidou com urgência de esconder, temendo que alguém visse. Do velho nem fazia medo, porque ele tinha o mal de "Alzheimer", jamais lembraria do que havia lhe entregado.
Acontece que quando o ancião apanhou a bolsa uma senhora viu, mas não sabia de que se tratava. E como não tinha nada a ver, deixou que ele levasse consigo aquele objeto que achara.
Mas não demorou muito para aparecer o dono da bolsa, um vendedor ambulante, e saiu perguntando a quem encontrava pelas ruas, se não sabia que alguém tinha achado uma bolsa assim, assim, assado. E por sorte dele, perguntou a dita mulher que presenciara quando o velho ancião encontrou a bolsa:
- A senhora sabe me informar se alguém achou uma bolsa assim, assim...?
- Senhor, eu não tenho certeza se era uma bolsa, mas um velho que mora ali - dizia ela pontando com o dedo indicador a casa - naquela casa de cor verde, apanhou um objeto, e daqui eu vi que parecia uma bolsa...
- Isso foi quando?
- Ontem, senhor...!
- Eu a perdi ontem mesmo.
O vendedor ambulante a agradeceu e foi direto à casa do velho. Ao chegar, bateu palmas. Foi recebido pelo velho que estava deitado em uma rede na sala única. E foi logo perguntando-lhe:
- Falaram-me que o senhor achou uma bolsa hoje com uma porção de dinheiro?
- Achei - respondeu-lhe o ancião.
- E cadê a bolsa?
- Está com a minha filha Marlene. Eu entreguei a ela ontem. Muito dinheiro.
- A bolsa é minha. Eu quero falar com a sua filha.
- Ou, Marlene minha filha, vem cá..., um homem quer falar com você.
E lá se veio a Marlene para saber o que estava acontecendo lá na sala.
- O que o senhor deseja? - Perguntou Marlene um pouco assustada.
- É que o seu pai achou uma bosa ontem..., é minha.
- Papai não achou bolsa, não senhor! Ele não sabe o que diz, senhor, meu pai é doente de mal de "Alzheimer"!
- Eu achei senhor, é que ela não está querendo lhe entregar, mas achei! - Dizia o velho.
- Se ele está dizendo que achou senhora, é porque ele achou.
- O meu pai sofre de mal de "Alzheimer" senhor, e não sabe o que diz.
- É mentira dela. Eu sei muito bem o que estou dizendo. Ela não quer entregar a bolsa com o dinheiro, agora está dizendo que eu estou doente. Eu achei e sei o que digo muito bem...
- Para o senhor ver que ele não sabe o que diz. Pergunte de onde ele vinha quando achou esta bolsa que afirma cheia de dinheiro.
- Quando foi que o senhor achou a bolsa?
- Eu achei quando eu vinha do catecismo...!
- Está vendo, que meu pai não sabe de nada. Quem faz catecismo é criança, e eu acho que nem quando ele era criança, fez catecismo.
- Verdade! Já vi mesmo que ele não achou a minha bolsa.
- Papai sofre de mal de "Alzheimer", seu moço...!
- Obrigado dona, e me desculpa a minha audácia...!
- Que nada senhor! Se ele tivesse achado e se estivesse em minhas mãos, eu lhe entregava agora.
- Adeus, dona!
- Adeus!
E assim que ele saiu Marlene disse consigo mesmo: "Vai-te embora, seu bestão, o dinheiro era seu, agora é meu!".

COM DAVI, IRMÃO DO VAQUEIRINHO GABRIEL.

  Por Rangel Alves da Costa Hoje (Sábado 12/09), após a Missa de Sétimo Dia, conversei alguns instantes com o irmão do Vaqueirinho Gabriel, ...