domingo, 23 de novembro de 2025

DANDARA E EU.

Por José Mendes Pereira

Vi Dandara pela primeira vez deitada sobre uma pedra de granito na área de sol do meu quarto. Pelo seu tamanho, acho que Dandara ainda estava na sua plena infância, vivendo no meio de muitas que com ela viviam. Eu não conhecia ninguém da sua família, mas certo dia, vi  a Dandara acompanhada da sua mãe, que a protegia dos perigos do mundo. Ali, cada passo que Dandara dava, a sua mãe também dava, como quem se estivesse ensinando por onde ela deveria seguir a sua trajetória da juventude que logo, logo não demoraria chegar.

O dia todo Dandara ficava sobre a pedra de granito da área de sol do meu quarto, e cada vez que eu chegava no quarto ela ficava me observando dos pés à cabeça, porque sabia que a qualquer momento eu iria tomar banho. 

Eu nunca fiz nada para que Dandara fosse embora dali, e com a continuação do tempo eu me pus a conversar com ela. Mas a Dandara nunca abriu nem se quer a sua boca para me responder. Também pudera! Dandara não falava, não ria e nem sorria, apenas comia, bebia e se divertia como criança saudável a todo instante.

Quando eu pegava a toalha e sabonete para tomar banho Dandara saía de cima da pedra de granito, e era a primeira a entrar no banheiro, e ficava aguardando que eu ligasse o chuveiro. E assim que a água deslisava sobre o chão do banheiro Dandara caía no banho, correndo de um lado para o outro, feliz da vida, nadando naquela água que corria para o ralo do piso, e com isso, molhava todo o seu corpo de pele lisa e quase translúcida.

A felicidade de quem está na infância tudo é igual. Ninguém tem comportamento diferente. Toda criança sente feliz quando brinca com qualquer coisa, até mesmo um banho de água fria faz rir e sorrir exageradamente. Dandara não ria e nem sorria, mas era igualzinha a todas as crianças do mundo, se sentia feliz no meio daquele banho de água fria.

Mas como nem tudo é mar de rosas certo dia ao entrar no quarto não encontrei Dandara. Pus-me a invocá-la, mas Dandara não deu nem sinal de vida. Procurei-a por todos os lugares do quarto, até mesmo por debaixo da cama, mas Dandara não estava lá. Parecia que ela tinha ido passear ou se divertir com as suas coleguinhas. 

Fiquei ali interrogando a mim mesmo: Será que Dandara foi levada pela sua mãe, que a poucos dias eu a vi seguindo-a como se estivesse a protegendo? Mas não. A mãe de Dandara já tinha sido morta por um perverso assassino. Vi o seu corpo em plena rua, e não fiquei com dúvida nenhuma, aquele corpo era da mãe da Dandara. E ainda procurando-a, vi Dandara morta com as suas vísceras de fora e com os olhos fora da sua cabeça.

Para mim, foi uma dor que senti irreparável. Dandara era simplesmente uma pererequinha ainda muito jovem, e um pé maldito pisou sobre ela, tirando-lhe a vida para sempre. 

Oh, que saudade da minha amiguinha Dandara! Ela se foi para sempre.  Adeus, Dandara!






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